sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

vila harmonia urgente! a máquina fascista de destruição volta a atacar!


É preciso que não se perca a capacidade de se indignar. Não podemos, por conta da sistemática e constante atitude fascista que permeia os ataques impetrados contra os desvalido de nossa sociedade, permitirmos nos arrefecer. 


O texto desta postagem, recebi-o por email do amigo Jorge, que recebeu do seu amigo Jorgecom a seguinte recomendação:  Jorge repassa para teus amigos, cabe sublinhar as "saudações SOCIALISTAS" que o Secretário Municipal de Habitação usou para assinar uma carta de explicações para esse tipo de política... fascista!

E... salve Jorge!

A Vila Harmonia amanheceu cercada de caminhões de mudanças, retroescavadeiras e os asquerosos funcionários da Prefeitura do Rio, sob o comando da tríade neofascista Eduardo Paes-Luiz Guaraná-Jorge Bittar. Após algumas semanas de reassentamentos negociados nas comunidades do Campinho e do Metrô/Mangueira, a Prefeitura acionou todo seu lobby nefasto junto ao Tribunal de Justiça do Rio. 

Os monstros da Subprefeitura da Barra da Tijuca chegaram como sempre, com seu aparato de arrogância e seus capangas da Guarda Municipal, e deram logo início às diversas ameaças de que não deixariam pedra sobre pedra, derrubarão as casas com gente dentro, se for necessário. Eles aguardam apenas as "ordens superiores" que trabalham sem tréguas para derrubar a liminar que protege as famílias resistentes.

Os Desembargadores parecem inebriados por algum canto maldito do Prefeito e de suas reuniões com o Presidente do TJ. Nenhum dos argumentos dos defensores públicos é ouvido, nenhuma outra possibilidade de negociação é oferecida. A comunidade Vila Harmonia abriga famílias que residem há mais de cem anos na região do Recreio dos Bandeirantes. Chegaram lá, provavelmente como sobreviventes de famílias escravas, ainda no início do século XX e possuem documentação que comprova isso. 

Na mesma comunidade, dois terreiros de Candomblé foram marcados para remoção sumária, sem sequer ser oferecida qualquer indenização sobre as benfeitorias e muito menos o respeito à terra sagrada e às relíquias espirituais ali enterradas.

A Vila Harmonia é ameaçada pelo Corredor Transoeste, uma obra rodoviária de mais de 50Km de extensão que visa conectar a Barra da Tijuca até Santa Cruz, passando pelo Recreio dos Bandeirantes e Guaratiba. A obra, orçada em cerca de R$1,2 bilhão, teve seu Eia/Rima executado em 1999 e, apesar do engavetamento do projeto por mais de 10 anos, o INEA concedeu nova licença de instalação em 2010, sem qualquer complementação ou análise do novo projeto básico ou do traçado extendido. Trata-se de um flagrante crime ambiental e contra os direitos humanos, à liberdade de culto e à dignidade das famílias ali residentes.

Urge uma rápida mobilização em apoio à Vila Harmonia! Urge uma sensibilização aos Desembargadores do TJRJ para que, pelo menos, o princípio da razoabilidade do processo administrativo seja respeitado. Urge uma ação direta contra o fascista psicopata do Prefeito Eduardo Paes que não respeita os mínimos princípios da administração pública e da urbanidade no trato com o diferente e com o cidadão mais pobre!

Que esta mensagem chegue ao Ministério das Cidades e às entidades de mediação de conflitos urbanos! Que esta mensagem sensibilize o Governo Federal que é o grande financiador dos projetos megalomaníacos do prefeito psicopata!

Jorge Borges
Geógrafo, Assessor Técnico

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

a casa de angola convida para o


1º Encontro do Cabelo Black Power
03/04/2011
A partir das 15 h

Programação

15:00 h – Percussão Baque Forte
16:00 h – Desfile de Cabelos Black – Adultos
16:30 h – Maracatu – Baque Stendal
17:00 h – Desfile de Cabelos Black -  3º idade
18:00 h – RAP OBP
18:30 h – Nelson Triunfo – Soul Black
19:30 h – Desfile de Cabelos Black – Crianças
20:30 h – Samba Rock e muito mais atrações...aguardem novidades 


Exposição de arte negra:

Bonecas Makena
Claudia Máscaras
Literatura negra – Quilombhoje e Hip-Hop a lápis
Bijouterias e muito mais.


Local – Visconde de Nova Granada, 513 Osasco
Próximo ao KM 18 – Estação Comandante Sampaio

Inscreva-se para desfilar pelo email – casadeangola.osasco@gmail.com ou pelo tel.2183-6184.

Realização – Secretaria de Cultura de Osasco-PMO
Apoio Cultural – Casa de Angola, Unegro, Inspir, Zelma Cabelos, Asantewa Cabelos, Revista Raça

é escolher, se jogar, e se deixar levar...

Escolha o seu Bloco e se jogue nele.

BANDA BANTANTÃ
Área: Bairro do Butantã (região Oeste – imediações da USP)
Data do Desfile: 25 de fevereiro, 6ª feira
Horário do Desfile: 21h
Concentração: às 16h, na Av. Waldemar Ferreira e R. Desembargador Armando Fairbanks.
Roteiro: R. Desembargador Armando Fairbanks, Av. Vital Brasil, R. Estevão Lopes, R. Gaspar Moreira, Praça Monte Castelo, R. Romão Gomes e Av. Lopes, Rua Gaspar Moreira, Praça Monte Castelo, R. Romão Gomes e volta para a tradicional Av. Waldemar Ferreira (Farão 3 vezes o mesmo percurso).

BLOCO DA RESSACA
Área: Bairro do Cambuci
Data do Desfile: 26 de fevereiro, Sábado
Local e horário da Concentração: às 14h, no Largo do Cambuci.
Horário do Desfile: 16h30
Roteiro: Largo do Cambuci, Rua Luiz Gama, Rua Cesário Ramalho, Rua dos Alpes, Rua Gerônimo de Albuquerque, Rua Barão de Jaguará, Rua Silveira da Motta, Rua Justo Azambuja, Rua Lavapés e Largo do Cambuci .
 
BLOCO PEGA O LENÇO E VAI
Área: Guapituba / Mauá
Data do Desfile: 26 de fevereiro, sábado
Local e horário da Concentração: Bar do Buiú - Rua San Juan, 121 - Pq das Américas
Horário: 15:00h

BLOCO CLASSE A
Área: Bairro da Barra Funda
Data do Desfile: 26 de fevereiro, Sábado
Horário do Desfile: 15h
Concentração: às 12h, na Rua Souza Lima, 295.
Roteiro: Rua Souza Lima, Rua Barra Funda, Rua Eduardo Prado, Praça Marechal Deodoro, Rua General Olímpio da Silveira, Rua Mário de Andrade, Rua Lopes Chaves, Rua Camaragibe, Rua João de Barros, Rua Brigadeiro Galvão, Rua Conselheiro Brotero, Rua Barra Funda e Rua Souza Lima.

Bloco Tô Zuado
Horário da concentração: a partir das 12h e desfile às 14h
Local da concentração: Rua Augusta, 1283
Bloco Barracão da Folia
Horário da concentração: a partir das 11h e desfile às 14h
Local da concentração: avenida Abrãao Ribeiro, 503, Barra Funda
Veteranos da cidade Dutra
Horário da concentração: a partir das 14h e desfile às 15h
Local da concentração: Praça Escolar, Cidade Dutra
BLOCO SUVACO DE COBRA
Área: Casa Verde
Data do Desfile: 27 de fevereiro, Domingo
Bar do Maurão na rua da Dobrada,159- Casa Verde - alt. da loja Alô Bebê da Av. Brás Leme.
Roteiro: Sentido Cruz Esperança.
Horário da concentração: a partir das 10h e desfile às 15h

BANDA GRONE’S
Área: Bairro Tremembé
Data do Desfile: 27 de fevereiro, Domingo
Horário do Desfile: 16h
Concentração: às 13h, na Rua Dr. Saturnino Vilalva ao lado da Praça Lions Club.
Roteiro: Rua Dr. Saturnino Vilalba, Rua Mártires Armênios, Rua Georgi Michel Atlas, Rua Alcindo Bueno de Assis e Rua Lavinia Pacheco e Silva.


BANDA REDONDA
Área: Bairro da Consolação
Data do Desfile: 28 de fevereiro, 2ª feira
Horário do Desfile: 21h
Concentração: às 19h, na Rua Theodoro Baima com Rua da Consolação e Av. Ipiranga.
Roteiro: Rua Theodoro Baima, Rua da Consolação, Rua Xavier de Toledo, Praça Ramos de Azevedo, Teatro Municipal, Rua Conselheiro Crispiniano, Largo do Paissandu, Av. São João, Av. Ipiranga, Praça da República e Rua Theodoro Baima

BANDA DO CANDINHO
Área: Bairro da Bela Vista/ Bixiga – Centro
Data do Desfile: 2 de março, 4ª feira
Horário do Desfile: 21h
Concentração: às 17h, na Rua Santo Antônio com Rua 13 de Maio/ Bixiga
Roteiro: Rua Santo Antônio, Rua Martinho Prado, Rua Martins Fontes, Rua da Consolação, Rua Xavier de Toledo, Praça Ramos de Azevedo, Teatro Municipal, Rua Conselheiro Crispiniano, Largo do Paissandú, Av. São João, Av. Ipiranga, Praça da República, Av. São Luiz, Viaduto 9 de Julho, Rua Santo Antônio até esquina da Rua 13 de Maio.

BLOCO UMES CARAS PINTADAS
Área: Bairro da Bela Vista/ Bixiga
Data do Desfile: 3 de março, 5ª feira
Horário do Desfile: 19h
Concentração: às 17h, na Rua Rui Barbosa, 323.
Roteiro: Rui Barbosa, Rua Santo Antonio, Rua 13 de Maio, Viaduto  Armandinho do Bixiga e Rui Barbosa.

BANDA DO TREM ELÉTRICO
Área: Bairro da Consolação – Centro
Data do Desfile: 4 de março, 6ª feira
Horário do Desfile: 21h
Concentração: às 19h, na Rua Augusta com Rua Luiz Coelho, Estação Consolação do Metrô.
Roteiro: Rua Augusta, Rua Martins Fontes, Rua Xavier de Toledo e Praça Ramos de Azevedo-Teatro Municipal, depois tem ônibus para o pessoal ir para a quadra dos metroviários no Tatuapé.

BANDA GRANDE FAMÍLIA
Área: Bairro Santana – Zona Norte
Data do Desfile: 19 de fevereiro, Sábado
Concentração: às 12h, na Rua Lucas de Freitas Azevedo (entre a Av. Ataliba Leonel e Av. Luis Dumont Villares).
Horário do Desfile: 18h
Roteiro: Rua Lucas de Freitas Azevedo, Rua Estefânia Louro, Praça Renato de Araújo Salgado, Av. Luis  Dumont Villares, Rua Francisco Lippi, Av. General Ataliba Leonel, Rua Lucas de Freitas Azevedo.
Veja a relação de Blocos e Bandas participantes do Pholia na Luz 2011:
Bloco A Bruxa tá Solta
Participa pelo sexto ano consecutivo. É formado por moradores dos bairros de Santana/Tucuruvi e tem a sua origem ligada ao time de futebol de salão “Magia Futsal ZN”. Realiza seus ensaios todos os sábados, a partir das 16h, na Escola de Samba Passo de Ouro, que fica na Avenida Luiz Dumont Villares.
Presidente: Eduardo de Amorim
Tel.: 2951-6415/9112-3110
Site: www.abruxatasolta.com.br

Carnaval da Comunidade Boliviana – “Associação Folclórica Boliviana”
Participa do pré-carnaval há cinco anos. É formado pelas principais fraternidades da colônia boliviana de São Paulo. Apresenta-se como no carnaval da Bolívia, com suas tradicionais indumentárias e máscaras.
Responsável: Dra. Ruth Camacho
Tel.: 2973-5452/9931-1530
Escola de Samba Unidos do Abaeté (Fundação 25/01/2002)
Participará pelo 6º ano consecutivo e é integrada por moradores do Jardim Elisa Maria, Jardim dos Francos e Parque Tietê. Tem como principal objetivo resgatar a cultura e o lazer dentro das comunidades.
Presidente: Marcos Antonio Freire (Marquinhos)
Tel.: 3156.4877/8217-8509

Bloco Med Pholia
Participará pela sétima vez do evento. É formado pelos estudantes de Medicina da USP e agrega entre seus componentes alunos da Fisioterapia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional e Enfermagem. Sua bateria é de responsabilidade da Atlética da Medicina.
Responsável: Rafael da Silva Giannasi Severino
Tel.: 3082-8775/1203-8672

Bloco Unidos Venceremos
Participa pelo terceiro ano no Pholia, e é formado por moradores do Bairro da Pompéia. O Bloco foi batizado pela Escola de Samba Nenê de Vila Matilde. Ensaia aos domingos às 18h no Parque Villa Lobos.
Responsáveis: Gabriel de Toledo e José Eduardo Reis
Tel: 2309-7409/9834-1934

Associação Cultural Bloco Carnavalesco Inajar de Souza
Escola fundada em 2/1/2005, fez sua estréia no Pholia em 2006. Formado por simpatizantes do time de futebol Inajar de Souza e a comunidade da Divineia, vem para o Pholia com 800 integrantes e bateria própria com 80 ritmistas.
Responsáveis: Kátia Lúcia de Oliveira e Paulo Henrique M. Silva
Tel.: 3936.6078/8154-6401/95993083 – recados

Grêmio Recreativo Educacional e Social Quilombo

Participa pelo quarto ano consecutivo do Pholia, e é formada por sambistas e amigos da comunidade da Zona Sul. Suas cores (verde e branco), bem como seu símbolo, reverenciam a Escola de Samba Império Serrano. Este ano virá com o enredo: “Roberto Ribeiro – 15 anos de saudade”.
Presidente: João Sampaio
Tel.: 8395-7510/2276.0182
Site: www.gresquilombo.com.br

Bloco Unidos da Melhor Idade – ABCMI

Participa do Pholia desde 1996 (15 anos) e é formado principalmente por foliões da Associação Brasileira dos Clubes da Melhor Idade. Este ano, irá homenagear a Velha Guarda do Carnaval Paulistano, tendo no comando da bateria o mestre Zuza ( Escola de Samba Vai-Vai). Todos os integrantes têm idade entre 50 e 70 anos.
Responsável: Odette Moralez
Tel.: 3801-1497/9516-8004

Associação Bloco Carnavalesco Navio Negreiro

Desfila pelo terceiro ano no Pholia, e é formado por amigos e sambistas da Vila Carolina, Zona Norte, muitos dos quais integrantes da saudosa Portelinha.
Presidente: Luis Carlos Peri
Tel.: 7428-9771/3991-0201         
Site: www.asnavionegreiro.com

Bloco Caranguejo Metoloco

Participa pela segunda vez no Pholia. Formado por estudantes e amigos da Faculdade de Comunicação Metodista.
Responsáveis: Fernando Ribeiro e Daniella Sevilha
Tel.: 9629-7067

G.R.C.E.S. Escola de Samba Raízes de Vila Prudente

Formado pela comunidade de Sambistas da Vila Prudente, desfila pela primeira vez no Pholia. Vem com o enredo: “Marco Consagrado”, sobre o Marco Zero.
Presidente: Ademir Xavier da Silva
Tel.: 2619.1251 e 7590.6717 (Liege)

Bloco Filhos da Mamãiss

Fundado em 2003 por Meirinha e Kaneco (Paulo Muniz) Foi batizado pela Escola de Samba Nenê de Vila Matilde, em 2007.
Tel.: 3815-8456/9905-1219/9533-6247

DESFILE - PHOLIA NA LUZ 2011

SÁBADO – 26/2/2011
15h – Comunidade Boliviana
15h30 – Bloco Med Pholia
16h20 – Bloco Unidos do Abaeté
17h – Bloco A Bruxa tá Solta
18h – Bloco Unidos Venceremos
19h – Bloco Carnavalesco Inajar de Souza
20h – Monalisa

DOMINGO – 27/2/2011

15h – Bloco Filhos de Mamãiss
15h45 – Bloco Navio Negreiro
16h45 – Escola de Samba Quilombo
17h45 – Bloco Unidos da Melhor Idade
18h45 – Bloco do Caranguejo Metoloco
20h00 – Encerramento

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

o racismo explícito de lobato: carta aberta ao ziraldo, por ana maria gonçalves



"A confiança de nossa raça no progresso e realizações dos outros na expectativa de obter simpatia, justiça e direitos é como depender de uma bengala quebrada, onde o apoiar-se nela significará uma eventual queda no chão... O preto necessita de uma nação e de um país próprio, onde ele possa demonstrar da melhor maneira sua própria habilidade na arte do progresso humano." (Marcus Garvey)

"No caso de nós pretos/negros brasileiros, nossa nação se constituirá na medida exata em que nossa população preta/negra se assuma enquanto tal, assumindo todos os valores culturais (diversos) derivados da nossa ancestralidade, e que nos são inerentes - nosso legado histórico. E, mais que assumi-los, fazê-los valer enquanto tais. Já no que diz respeito a um país próprio, este, o temos, já existe e chama-se Brasil. Se nos negam nosso inaliénável direito a ele, briguemos!" (Selito SD)


Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves

Caro Ziraldo,
Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...) Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).




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Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa: "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".
Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".
Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros."Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.
Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".
No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.
ziraldo_direitos_humanos.jpgO que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem."Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.
A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que"Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).
Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.
Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.
Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.menino-lendo.jpg
Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz: "Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais." É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.
Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".
Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,
Ana Maria Gonçalves
Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.
Fonte: http://www.idelberavelar.com/

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

24 anos do massacre xakriabá: história e martírio de um povo

Por Cimi Regional Leste
Equipe Xakriabá


No último sábado (12), o povo Xakriabá se reuniu para relembrar o maior massacre da sua história. Em 12 de fevereiro de 1987 três lideranças xakriabá foram brutalmente assassinadas, entre eles, Rosalino Gomes de Oliveira.
Foi na madrugada do dia 12 de fevereiro de 1987, que quinze homens fortemente armados comandados por Francisco de Assis Amaro, conhecido grileiro de terras do Norte de Minas Gerais, invadiram a aldeia Sapé e atacaram a casa do líder Xakriabá Rosalino Gomes de Oliveira assassinando três pessoas; Rosalino, José Pereira Santana e Manoel Fiúza da Silva.  Anizia Nunes de Oliveira (esposa de Rosalino) ficou gravemente ferida. Esta ação aconteceu quando a família de Rosalino estava dormindo e não tiveram nenhuma chance de se defender.
O motivo da violência contra o povo Xakriabá foi ganância dos grileiros sobre as terras dos Indígenas. A investida sobre o território Xakriabá tinha como base, políticos, empresários e fazendeiros, entre eles o prefeito do município de Itacarambi-MG, José Ferreira de Paula. Naquele período, o então emancipado município de São João das Missões - MG, onde hoje se localiza o território Xakriabá, era distrito de Itacarambi.
Na época, este acontecimento teve grande repercussão nacional e internacional. Os envolvidos na chacina foram presos e condenados, o crime foi caracterizado como genocídio.
Passados 24 anos, a comunidade xakriabá se reuniu para fazer uma reflexão sobre a sua luta, e desta forma, avaliar os avanços e os desafios da sua caminhada no contexto do martírio.
Importantes lembranças
O resgate do processo histórico da luta do povo xakriabá na defesa dos seus direitos, foi elemento importante neste momento de reflexão, vários documentos da época da chacina se tornaram públicos, entre eles, as inúmeras cartas manuscritas por Rosalino e outras lideranças xakriabá denunciando toda a violência sofrida pelo seu povo.
Dona Anizia (viúva de Rosalino), relatou os fatos que marcaram a sua vida e a vida de seu povo, falou do importante papel desempenhado por Rosalino e a comunidade Xakriabá, que respondiam positivamente ao enfrentamento das ameaças contra os seus direitos. Desmistificou a história de preconceito e discriminação contra os índios Xakriabá, afirmando que tanto no passado como nos dias atuais, toda vez que os indígenas não aceitam que os seus direitos sejam usurpados, esses povos são vistos como violentos; reforçou que o seu povo só quer viver em paz e ter os seus direitos respeitados. Dona Anizia também enfatizou que mesmo depois de tanto derramamento de sangue, a negação dos direitos do seu povo ainda continua, falou sobre a importância da união de seu povo para continuar na luta.
Mesmo diante de tanto massacre, são grandes as conquistas obtidas pelo povo Xakriabá. O sangue derramado por Rosalino Gomes de Oliveira libertou seu povo. O território Xakriabá está parcialmente demarcado e homologado, são 54 mil ha que representa apenas um terço da sua terra tradicional. Atualmente, o povo xakriabá está em um novo processo de luta para reaver mais uma parte do seu território.
José Nunes de Oliveira (filho de Rosalino) foi reeleito o prefeito do Município de São João das Missões - MG, juntamente com cinco vereadores indígenas xakriabá, quebrando assim um paradigma. A vitória de um indígena xakriabá nas eleições é parte da consolidação de um processo de participação política que reconhece a importância do povo xakriabá no contexto político regional e estadual, sendo José Nunes o primeiro prefeito indígena eleito no estado de Minas Gerais.
Domingos Nunes de Oliveira (também filho de Rosalino) assumiu o cacicado do seu povo, dando continuidade ao sonho do seu pai, ver o povo Xakriabá livre do cativeiro. Segundo o cacique Domingos, a autonomia do povo Xakriabá sobre o seu território é um direito até então negado e esse é o principal motivador da violência contra o povo Xakriabá e conseqüentemente contra outros povos Indígenas no Brasil. Fala ainda dos ensinamentos deixados pelo seu pai e a responsabilidade da sua comunidade em continuar defendendo os seus direitos.
Contudo, grande parte dos desafios enfrentados no contexto atual pelo povo Xakriabá é fruto dos equívocos cometidos pelo Estado de direito, principalmente no tocante a demarcação do território. A nova luta do povo Xakriabá em reaver mais uma parte do seu território continua, bem como o aumento da violência contra os índios.
As famílias que hoje já se instalaram nas novas áreas retomadas vivem apreensivas e amedrontadas pelos fantasmas do passado, mesmo tendo a seu favor estudo da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), que afirma o direito dos indígenas sobre as novas áreas retomadas. As ameaças provenientes outrora pela ação truculenta de pistoleiros, hoje se soma às ações de reintegração de posse impetrada por fazendeiros: é o meio jurídico encontrado por aqueles que não respeitam nem o legal e muito menos o legítimo. Comunidades inteiras do povo Xakriabá correm o risco de serem expulsas do seu território e essa é a dura realidade vivenciada pela aldeia Morro Vermelho.
Os elementos utilizados pelo povo Xakriabá para exigir dos órgãos competentes o reconhecimento dos seus direitos no tocante a demarcação do seu território tem como pilares duas razões significativas: a primeira passa pelo processo “legal”; este povo possui um documento de doação datado de 1728 que limita o território, contudo apenas um terço desta área (legalizada, documentada e registrada em cartório) está demarcada e homologada. A segunda está baseada na legitimidade, as novas áreas de retomada são terras tradicionalmente ocupadas pelo povo Xakriabá (conforme estudos realizados pela FUNAI), este é um direito garantido pela constituição Federal de 1988.
Dentro de outro contexto, o território Xakriabá continua ameaçado e invadido pelos grandes projetos, na maioria financiada por recursos públicos, como é o caso do projeto de transposição do Rio São Francisco, mineração e pavimentação de rodovias Federal e Estadual (PAC do Governo Federal e o Pró- acesso do Governo do Estado de Minas Gerais). O legal e o legítimo ainda não foram suficientes para garantir a tão sonhada paz esperada por este povo, a sua autonomia sobre o seu território não é respeitada, as máquinas do “desenvolvimento” não respeitam a terra, o território e muito menos a tradição de quem nela vive e trabalha para sobreviver.
 Equipe Xakriabá em 15/022011