segunda-feira, 29 de março de 2010

a formiga boladona (sensacional, ainda que manjada!)

Era uma vez, uma formiguinha e uma cigarra muito amigas. Durante todo o outono, a formiguinha trabalhou sem parar, armazenando comida para o período de inverno. Não aproveitou nada do sol, da brisa suave do fim da tarde e nem o bate-papo com os amigos ao final do trabalho tomando uma cervejinha gelada. Seu nome era 'Trabalho', e seu sobrenome era 'Sempre'.

Enquanto isso, a cigarra só queria saber de cantar nas rodas de amigos e nos bares da cidade; não desperdiçou nem um minuto sequer. Cantou durante todo o outono, dançou, aproveitou o sol, curtiu prá valer sem se preocupar com o inverno que estava por vir.

Então, passados alguns dias, começou a esfriar. Era o inverno que estava começando. A formiguinha, exausta de tanto trabalhar, entrou para a sua singela e aconchegante toca, repleta de comida. Mas alguém chamava por seu nome, do lado de fora da toca. Quando abriu a porta para ver quem era, ficou surpresa com o que viu. Sua amiga cigarra estava dentro de uma Ferrari amarela com um aconchegante casaco de vison.

E a cigarra disse para a formiguinha: Olá, amiga, vou passar o inverno em Paris. Será que você poderia cuidar da minha toca? E a formiguinha respondeu: Claro, sem problemas! Mas o que lhe aconteceu? Como você conseguiu dinheiro para ir à Paris e comprar esta Ferrari?

E a cigarra, então, explicou: Imagine você que eu estava cantando em um bar na semana passada e um produtor gostou da minha voz. Fechei um contrato de seis meses para fazer show em Paris... À propósito, a amiga deseja alguma coisa de lá?

Desejo sim! Respondeu a formiguinha.... Se você encontrar o La Fontaine* por lá, manda ele ir para a 'Puta Que O Pariu!!!

Moral da História: Aproveite sua vida, saiba dosar trabalho e lazer, pois trabalho em demasia só traz benefício em fábulas do La Fontaine e ao seu patrão. Trabalhe, mas curta a sua vida. Ela é única! Se você não encontrar a sua metade da laranja, não desanime, procure sua metade do limão, adicione açúcar, pinga e gelo, e... Seja feliz! Tente ao menos! Ou não! :)

(*) Autor da Fábula Original

encontro no sindicato dos advogados recebe vítima de racismo no carrefour*

Em 22/03/10

21 de março é o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. Em lembrança a esta data tão simbólica, no dia 19, ocorreu – na sede do Sindicato dos Advogados de São Paulo – um encontro com entidades do movimento negro, lideranças e parlamentares. O convidado especial foi Januário Alves de Santana, acompanhado de sua esposa, Maria dos Remédios, e da filha Esther. Em 2009, o trabalhador negro (vigilante da USP) foi espancado por seguranças de uma loja da rede francesa de hipermercados Carrefour, em Osasco, na Grande São Paulo. Na ocasião, Januário foi acusado pelos seguranças de ter roubado o próprio carro, um Eco Sport, da Ford.

Coincidentemente, Januário faz aniversário em 21 de março. 50 anos atrás, ocorria o massacre racista de Shaperville, na África do Sul. Em 1960, na cidade de Joanesburgo, 20 mil negros estavam protestando contra a lei do passe, que obrigava as pessoas a andarem com cartões de identificação, que estabeleciam locais por onde elas podiam ou não passar. Apesar de pacífica, a manifestação teve um fim trágico: a polícia atirou na multidão e deixou 69 mortos e 186 feridos. A data, criada pela ONU, pela Resolução nº 2.506, de 21/11/1969, foi aprovada pela Assembléia Geral.

Acordo extrajudicial

Questionado nos últimos meses sobre o andamento do caso, o advogado de Januário, Dojival Vieira, leu um comunicado em que anunciou o acordo extrajudicial com o Carrefour Indústria e Comércio Ltda. Pelo acordo, Januário foi indenizado por ter sido espancado por seguranças de uma empresa privada - a Nacional Segurança - nas dependências do Hipermercado.

O acordo encerra o caso na esfera cível, evitando a entrada de ações por dano moral na Justiça. Segundo o comunicado, “simboliza e demonstra que há disposição e integridade de propósito das partes em contribuírem para uma sociedade mais inclusiva” e “a crença de que o diálogo é a ponte que une as pessoas e elimina as barreiras”.

Mobilização e representatividade

Também participaram do evento militantes como Douglas Belchior, Heber Fagundes, Sérgio Caetano, Vanessa Nascimento e Nádia Tomé, todos do Conselho Geral da UNEafro Brasil; João Bosco Coelho, do Brasil Afirmativo; Joselício Júnior (Juninho) do Círculo Palmarino; Cleyton Borges e Gabriel Sampaio, representando o Sindicato e a Assembléia Popular; o deputado Vicente Cândido (PT), presidente da Frente Parlamentar pela Igualdade Racial da Assembléia Legislativa; representações dos mandatos dos deputados estaduais Raul Marcelo (Psol) e José Cândido (PT), da Comissão de Direitos Humanos da Alesp; e o militante Claudinho, pela Secretaria Estadual de Combate ao Racismo do PT.

Cândido disse que o acordo celebrado entre Januário e o Carrefour demonstrou a correção da busca de entendimento entre as partes e acrescentou que é um exemplo para o Brasil. "Acompanhamos desde o primeiro momento e expressamos a solidariedade da Assembléia Legislativa," afirmou. A professora Roseli de Oliveira, da Coordenação de Políticas para a População Negra e Indígena da Secretaria de Justiça do Estado, em viagem pelo interior, esteve representada pela advogada Eni Augusto de Paula.

Movimento faz cobranças

Douglas Belchior ressaltou que, embora positivo do ponto de vista da justiça para o vigilante Januário e sua família, a realização de um acordo está aquém do que o movimento espera. "A UNEafro entende que o Carrefour e outras empresas que comentem racismo não podem ser vistas ainda com a 'ficha limpa' diante das barbaridades que cometem com negros, sejam eles clientes ou funcionários. Esperamos uma mudança radical na postura". Ele explicou que o movimento deve continuar firme na denúncia e nas cobranças diante das empresas e dos governos. "A luta anti-racista deve ser ainda maior" - concluiu.

Justiça

No âmbito policial, o caso não avançou. O Inquérito 302/09, que tramita no 9º DP de Osasco, ainda não foi concluído e nem mesmo o laudo do Instituto de Criminalística para degravação das imagens do episódio foi finalizado. “Sem o inquérito concluído, o Ministério Público não pode se manifestar e o caso não chega à Justiça”, afirmou o advogado.

Ele também disse que vai pedir à delegada Rosângela Praxedes da Silva que oficie ao Instituto Médico Legal de Osasco, pedindo a complementação da perícia realizada logo após as agressões. O laudo aponta lesões de natureza leve, e é desmentido pelo Relatório do Hospital Universitário onde Januário foi operado e recebeu placas de platina no rosto por ter sofrido fratura do maxilar.

O deputado Vicente Cândido anunciou a realização de uma Audiência Pública na Alesp para tratar do caso e pedir a agilização das conclusões do Inquérito a fim de que seja encaminhado ao Ministério Público e posteriormente à Justiça. No final, o advogado disse que vai procurar o ministro Edson Santos, da Igualdade Racial, e o secretário de Justiça de S. Paulo, Luiz Antonio Marrey, para agradecer a solidariedade recebida durante o episódio.

Tortura

Os seguranças envolvidos terão que responder na Justiça pelas agressões e poderão ser punidos com penas que vão de 2 a 8 anos de reclusão, caso sejam denunciados pelo Ministério Público com base na Lei que define os crimes de tortura – a 9.455/97.

A Lei define como crime de tortura “constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental”; “em razão de discriminação racial”. Também pune “aquele que se omite em face dessas condutas, quando tinha o dever de evitá-las ou apurá-las”, no caso dos policiais que atenderam a ocorrência e que, além de, inicialmente, reforçarem a suspeita, não socorreram o vigilante da USP.

Para estes, além das penas, aumentadas pelo fato da lesão ser de natureza grave, ainda há a previsão de perda do cargo, função ou emprego público e interdição para seu exercício pelo dobro do prazo da pena aplicada.

Veja a matéria da TV Record


http://www.uneafrobrasil.org/home_caso_januario.asp


(*) Origem: email enviado pela amiga Gilmara P. S.

pm diz que "ainda não sabe o nome do policial que socorreu a soldado, nem o que ele fazia na manifestação.

E sobre a postagem os professores carregam a sociedade, belo texto originado a partir da foto abaixo, temos novidades, se não desencantantes.... Bem, a elas!
27 de março de 2010 às 20:48

por Conceição Lemes

Desde ontem a magnífica foto do manifestante carregando policial ferida (foi como a Agência Estado a legendou) durante a manifestação dos professores emocionou muita gente. Hoje à tarde a Polícia Militar do governo do Estado de São Paulo informou que a soldado chama-se Erika Cristina Moraes de Souza Canavezi e passa bem. Já o professor é, na verdade, um policial militar à paisana. (Leia na íntegra)

domingo, 28 de março de 2010

xiii fábrica de idéias - 2010

9-27 de Agosto 2010

XIII FÁBRICA DE IDÉIAS - 2010[1].pdf

CURSO AVANÇADO EM ESTUDOS ÉTNICOS E RACIAIS

TEMA: Patrimônio, Memória e Identidade

Patrimônio, memória e identidade é o tema da 13ª edição do Curso Internacional Fábrica de Idéias. Em 2010, o nosso objetivo será refletir sobre os processos de patrimonialização da cultural material e imaterial de minorias étnico-raciais, sobretudo no Sul do mundo - um lugar caracterizado pelo relativo pequeno número de museus e arquivos –, considerando as dinâmicas, os impactos e as conseqüências desse processo na construção e no fortalecimento das identidades étnico-raciais e na política da diversidade. Interessa-nos debater o tema, especialmente, a partir de uma perspectiva comparativa Sul-Sul, assim como nos interessa refletir criticamente sobre as políticas de arquivo existente nos países do hemisfério norte. Focalizaremos a relação estabelecida entre os museus, os arquivos e as memórias relacionadas aos processos identitários num contexto determinado por transformações tecnológicas.


Onde: Centro de Estudos Afro-orientais/UFBA

Quando: 09 a 27 de Agosto de 2010

Inscrições: 15/01 a 31/03/2010

Vide Informações: www.fabricadeideias.ufba.br

admiráveis cúmplices

por Márcia Luck

Ontem foi um dia muito difícil para digerir em vários ângulos, exemplo: A greve dos "Aos mestres com carinho", primeiro uma ação articulada e inteligente dos poderes (reconheço), para romper o grande encontro dos professores do Estado de São Paulo no palácio do governo, bairro do Morumbi. De que forma, vcs podem perguntar, houve essa tentativa de rompimento? respondo: - O sindicato dos professores da prefeitura marca também um encontro; onde? longe, lá no centro de São Paulo.

É evidente que a categoria ficou dividida, mas analisando a grande maioria foi para o palácio, pois devia haver no máximo 3 mil professores da prefeitura no centro. O difícil foi quando meus amigos e amigas, começaram a ligar desesperados com o que estava acontecendo, fiquei mal, e a única atitude real e possível era entrar em contato com vocês, e vcs foram precisos.

Escrevo-lhes para agradecer o envolvimento. É claro que nossa opção ideológica nos aproxima, e entendo quando outros se afastam. Me estarreceu de maneira inelígível, a frieza de um policial jogar gás de pimenta em crianças, ai enlouqueci, e ainda o que acompanhava pela internet e outros meios midiáticos de fato, não saiu nada sobre as crianças, ambulâncias, bombas de efeito moral, 300 onibus barrados de professores vindo do interior, aliás acorda interior, dissimulação de policiais queimando carros para culpabilizar professores (uma profa tirou foto dessa ação reacionária), borrachadas, socos e outros, e nós fomos seus professores...

Outra coisa que nesse momento me preocupa, até por uma fala recente de uma amiga. As escolas estão preparando o Plano Nacional de Educação, será que as escolas da Zona Sul não foram chamadas para as discussões também nesse quesito? estamos marginalizados (além do rio) outra vez? mas gostaria de alertar que o legalismo vem se impondo com falsos silogismos e aforismos, o discurso e a nossa passividade transformará as escolas em igrejas (para favorecer a quem?).

A laicidade está garantida na constituição, o currículo nos cobra trabalhar "A Diversidade Cultural". A escola foi concebida para ensinar a pensar e não doutriná-los, estamos perdendo espaço com consciência de tal, e não percebemos isso. Ou percebemos? O retrocesso é estanque, impossível negar, para beneficiar a que interesses? Eu trabalho em uma escola diferente, mas o perigo está em não realmente ver que eles têm ganhado espaço em uma velocidade assustadora, e minha pele tem na memória muito sangue derrubado para a reconstrução de um Brasil justo. Bom, termino dizendo que eu os vejo! ou seja, Obrigada!

os professores carregam a sociedade*

"Nós não precisamos de muita coisa, só precisamos uns dos outros."
(Carlito Maia)

http://brasiliaeuvi.files.wordpress.com/2010/03/o-professor-e-o-pm.jpg?w=300&h=234
Quase todos perdidos de armas nas mãos

Muito ainda se falará dessa foto de Clayton de Souza, da Agência Estado, por tudo que ela significa e dignifica, apesar do imenso paradoxo que encerra. A insolvência moral da política paulista gerou esse instantâneo estupendo, repleto de um simbolismo extremamente caro à natureza humana, cheio de amor e dor.

Este professor que carrega o PM ferido é um quadro da arte absurda em que se transformou um governo sustentado artificialmente pela mídia e por coronéis do capital. É um mural multifacetado de significados, tudo resumido numa imagem inesquecível eternizada por um fotojornalista num momento solitário de glória.

Ao desprezar o movimento grevista dos professores, ao debochar dos movimentos sociais e autorizar sua polícia a descer o cacete no corpo docente, José Serra conseguiu produzir, ao mesmo tempo, uma obra prima fotográfica e uma elegia à solidariedade humana. Inesquecível, Serra, inesquecível.

(*) Recebido por email de Andrei Cornetta

sexta-feira, 26 de março de 2010

100 anos da revolta da chibata

E disse meu amigo Marcelo Abruzzini Benedito: Para além dos centenários dos "notórios" Noel Rosa e Adoniram Barbosa (no meu entendimento, artistas teimosamente confundidos/tratados como sambistas)* a quem certamente não faltarão homenagens e especialistas (falando sobre)*, penso que temos que destacar os cem anos da Revolta da Chibata, com todos seus personagens e sua luta. Há um curta chamado "Memórias da Chibata" de Marcos Marins que assisti há alguns anos atrás na Cultura e que trata de um menino negro que aprende sobre a Revolta da Chibata a partir da avó e vai relacionando aquela postura com os enfrentamentos na sua própria vida. É muito bacana (...) e se não me engano há um depoimento do próprio João Cândido no final do filme. Daí esta postagem!
(*) Destaques meus

Trailer do curta-metragem "Memórias da Chibata"

Origem: chibataofilme | 15 de junho de 2009 | Curta-metragem "Memórias da Chibata" do mesmo diretor Marcos Manhães Marins e mesma produtora. Ganhador de 4 PRÊMIOS, de melhor filme, roteiro, atriz, edição e selecionado em 19 festivais e mostras no Brasil e no exterior.


polícia de durban é flagrada fazendo “varrição” das crianças de rua por membros da copa do mundo de criança de rua

Durban, 22 de março de 2010

A menos de três meses da Copa do Mundo da FIFA na África do Sul, a polícia metropolitana de Durban, uma das cidades sede do evento, foi filmada em ações de varrição de crianças de rua, para retirá-las do centro da cidade. O flagra aconteceu durante o período da Copa do Mundo de Criança de Rua, que teve início em 14 de março e acabou hoje. As imagens foram feitas por membros da Umthombo, organização que trabalha diretamente com crianças em situação de rua e que representou a África do Sul neste projeto. Elas estão disponíveis no site:


“As crianças de rua alegam que essas operações de varrição têm ocorrido com freqüência por causa da Copa do Mundo da FIFA. A prefeitura de Durban disse que investigaria essas alegações, mas diz que a polícia não está tirando as crianças das ruas à força para a Copa de 2010”, afirma Tom Hewitt, CEO da Umthombo. (Saiba mais)

quarta-feira, 24 de março de 2010

demétrio, dem(o) e demóstenes: uma crônica mal contada sobre cotas

Cleyton Wenceslau Borges*

Crônica publicada em 21 de março de 2010 - Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, data criada em lembrança das vítimas do massacre racista de Sharpeville, na África do Sul, em 1960.

Aconteceu no bairro Bela Vista, na região central de São Paulo.

- Não é por nada não! - disse o rapaz que aparentava ser mais velho - mas esse papo contra as cotas já tá cansando.

Estavam juntos três rapazes que demonstravam ser amigos e caminhavam pela calçada. Eu parei o carro e fui comprar crédito para celular. A conversa corria solta, típica de fim de expediente. Sem querer, fiquei ouvindo.

Os três pararam no mesmo boteco que eu havia entrado.

- Não adianta - falou o mais jovem, de sotaque baiano – a mulher fez a melhor oratória de toda a audiência - e prosseguiu: - não importa se é do DEMo ou não é, mas impressionou quem estava no Supremo.

- Pelo amor de Deus, cara – balançou a cabeça o único negro do grupo, em sinal negativo - Isso não é argumento, falar que não dá pra saber quem é negro no Brasil?

A resposta veio de supetão:

- Eu assisti e vocês também assistiram a audiência no STF, ok? Eu não concordo com nada do que ela falou. Só falou besteira, mas soube chamar atenção, soube cativar, mesmo falando aquilo.

- Que adianta? – voltou à prosa o mais velho, que é branco e barbudo.

Sentaram-se à mesa do lado de fora, pediram cerveja e amendoim. O mais novo acendeu um cigarro.

- Vamos pedir um churrasquinho também?

- Opa! Dois de carne, um de queijo!

Decidi ficar na espreita. Pedi uma Coca e colei na mesa ao lado. O de sotaque baiano jogou mais essa:

- Não tem jeito. O pessoal que ficou lendo tratados teóricos e estatística... perderam tempo. Isso não convence mais ninguém.

- E você, me convenceria de ser a favor das cotas como?- disparou o barbudo, com cara de mais velho.

O rapaz negro atropelou:

- É, agora eu vou olhar no espelho e ver um loiro, ou vou sair na rua e vão me confundir com o Di Caprio! Só a advogada do DEMo pra falar isso. Será que no fundo ela acredita no que fala ou tá só fazendo um serviço pago? Ou melhor, bem pago!

- Será que eles sabem quem é negro aqui na mesa? baixou o tom da voz, apontando o dedo para uma viatura da GCM que passava.

- Cara, a gente sabe que ela falou besteira, mas pra quem não sabe nada do assunto, ela conseguiu misturar tudo... e as frases de efeito... soam como se fosse verdadeiro, é fod*, irmão!

Eu pedi um churrasco de lingüiça e passei da Coca pra uma Itaipava.

- O pior cê nem viu. O discurso do medo, que as cotas vão gerar conflito, agressão de negros contra brancos e tudo mais. – soltou o barbudo, chegando mais à frente da cadeira.

- Você é bom baiano?- Indagou o mais velho.

- Alguma dúvida? - o mais jovem devolveu.

- Então pede uma pinga com mel !

- Pinga com mel é coisa de mineiro...

Por ser sexta-feira, chegava mais gente ao bar, mesmo já passando das nove. Uns meninos “de rua” vendiam balas, de mesa em mesa. Apesar de estar bem no Centro, aquela rua não era tão movimentada.

- O que você tinha perguntado? - o baiano passou a mão no queixo olhando para o barbudo - Quer saber como a gente convenceria alguém de defender cotas, é isso?

O outro assentiu com a cabeça, dando mais um tapa na cana.

- Eu te falo: podem dizer que a questão é de fundamento teórico, moral ou sei lá o quê. Eu ainda vejo que a questão deve ser olhada como psicológica.

- Como assim? - Perguntou o rapaz negro.

- Não quero dizer que a maioria dos brancos são contra as cotas. Não sei. Mas muitos dos brancos que são contra as cotas, não aceitam porque isso os remete a uma parte de culpa no cartório, concorda?

Os outros dois ficaram em silêncio como que pedindo para ele continuar.

- Já ouviram falar que tratar de racismo é mexer numa ferida aberta? É difícil para o negro e para o branco. Para o negro por razões óbvias. Ficar lembrando que foi roubado, escravizado, que teve os avós, bisavós, sei lá, violentados.

- Mas e o branco? - jogou o mais velho.

- Não dá pra generalizar companheiro, mas isso acontece e é comum. Vai numa sala de aula de Direito e toca no assunto! – ficou mais eufórico, com o dedo em riste: - Os brancos vem com o discurso da Constituição que todos são iguais, blá, blá, blá...- E bebeu mais um gole.

- Mas você acha que a Lei iria garantir alguma coisa? - o mais velho gostava do debate.

- Acorda mano, e por acaso a Constituição não tem cotas? Não tem ação afirmativa pra todo mundo lá? - Ele falava como se contasse em cada dedo de sua mão: - cota pra mulher, cota pra deficiente, proteção ao consumidor, trabalhador rural, idosos, menores, pequeno empresário, tem direitos especiais pra todo mundo... pára! Só pra negro é que dá problema?

O rapaz negro emendou:

- Já pensou o que aconteceria se a Globo tivesse que ter 30% de seus contratados todos pretos, bem pretinhos? - Deu uma risada sarcástica, mas continuou: - E se o papel do negro nas novelas e filmes não for mais de empregada ou bandido? Já pensou se a Veja iria suportar isso? - E engrossou a voz, imitando algum apresentador de jornal, tipo Cid Moreira: - Revistas semanais são obrigadas a preencher 40% de suas publicidades com fotos de negros.

- Você acha mesmo que o problema tá aí? - O baiano perguntou com o espeto na mão e o sotaque bem carregado.

- Não, isso não é nem o começo. Mas gente igual o Ali Kamel, o Bonner e essa turma da Folha e do Estadão não querem cotas porque assim eles admitem a existência do racismo brasileiro e a parcela de culpa deles, dos pais deles, dos avós que foram donos de escravos, sabe? - E completou depois de colocar mais cerveja no copo: - o problema maior pra eles é que as cotas dividem o poder. Se o Supremo decide que as cotas são constitucionais, todo espaço de poder concentrado nas mãos deles fica ameaçado. Desde a novela até a gerência do banco, partidos políticos. Guarde isso que eu vou te falar, mano: as cotas revelam a dimensão racial da luta de classes, entendeu?

Eu já tava na minha terceira latinha. Pedi um churrasco de coração.

O mais velho entrou na mesma linha:

- O que será do Objetivo se seus alunos puderem abocanhar só metade das vagas da USP? Imagina a coordenação das bolsas da FAPESP ou CNPq tendo que fatiar esse bolo?

- Mas nesse caso, a cota é social e não racial, né? - disse o baiano.

-Não senhor! – o negro entrou na conversa - Olha só o que eu ouvi um dia: as cotas raciais conseguem contemplar as cotas sociais. Mas as cotas sociais não contemplam as raciais. Isso é um falso argumento inventado por quem é contra. - Tirou um jornalzinho da pasta, mostrando para os colegas. - Tem mais: comprovadamente as políticas de cunho universal não diminuem as desigualdades entre brancos e negros... Até no grupo em que todos têm baixa renda, os negros estão em desvantagens em relação aos brancos pobres... e aí vai...”

-Mas, voltando à advogada do DEMo, que coisa, né? - O mais velho falava com certa dose de ironia - Não bastasse as lorotas desse cara aí... o Demétrio, vocês viram o que falou o tal Demóstenes? Que a escravidão foi culpa dos africanos e as mulheres escravas consentiam a violência sexual... é mole?

- Oportunista do car****!

- Que ele é oportunista, a gente sabe. Vem fazendo esse serviço faz tempo! E se deu bem. Ganhou os votos e o apoio de todos os racistas. Demétrio, DEMo e Demóstenes! Estamos bem!

Fui embora pra casa. Aquele papo ia longe. Tava garoando.

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Obs.: todos os fatos narrados são fictícios.

(*) O autor, Cleyton Wenceslau Borges, reside na Zona Leste de São Paulo e é membro do Conselho Geral da UNEafro Brasil. Tem Especialização em Gestão de Políticas Públicas e Diversidade pela USF.

Contato: borges.cleyton@gmail.com

segunda-feira, 22 de março de 2010

inkises, orixás, voduns

Candomblé Bantu - Na mitologia dos povos de língua Kimbundu, originários do Norte de Angola, o Deus Supremo e Criador é Nzambi ou Nzambi Mpungu. Abaixo dele estão os Jinkise (plural de nkise), divindades da mitologia Bantu. Essa divindade corresponde à Olorun e aos Orixás da mitologia Yoruba e do Candomblé Ketu. Os principais Jinkisi cultuados no Brasil são:


  • Aluvaiá, Bombo Njila, Pambu Njila - Intermediário entre os seres humanos e o outros Nkisis (cf. Exú Orixá). Na sua manifestação feminina, é chamado Vangira.
  • Nkosi, Roxi Mukumbe - Nkisi de guerra e Senhor das estradas de terra. Mukumbe, Biolê, Buré qualidades ou caminhos desse Nkisi.
  • Ngunzu - *Kabila - O caçador pastor. O que cuida dos rebanhos da floresta.
  • Mutalambô, Lambaranguange - Caçador, vive em florestas e montanhas, nkisi de comida abundante.
  • Gongobira Tem o domínio das partes mais profundas e densas das florestas, onde o Sol não alcança o solo por não penetrar pela copa das árvores.
  • Katendê - Senhor das jinsaba (folhas). Conhece os segredos das ervas medicinais.
  • Nzaze - São o próprio raio, entrega justiça aos seres humanos.
  • Kaviungo- Nkisi da varíola, das doenças de pele, da saúde e da morte, o Senhor da terra, também chamado de Ntoto pelo povo de Congo.
  • Angorô ou - Auxilia na comunicação entre os seres humanos e as divindades (representado por uma cobra).
  • Ktembo ou Nkisi Tempo - Rei de Angola. Senhor do tempo e estações. É representado, nas casas Angola e Congo, por um mastro com uma bandeira branca.
  • Kaango - Guerreira, comanda os mortos (nvumbe).
  • Ksimbie, - A grande mãe. Nkisi de lagos e rio Senhora da fertilidade, e da Lua.
  • Kaitumba- Nkisi do Oceano, do Mar (Kalunga Grande).
  • [Zumbarandá]] - A mais velha das Nkisi, conectada à morte.
  • Wunji - O mais jovem do Nkisi. Representa a felicidade da juventude e toma conta dos filhos recolhidos.
  • Lembá Dilê, Lembarenganga- Conectado à criação do mundo.


Candomblé Jeje, é o candomblé que cultua os Voduns do Reino de Dahomey levados para o Brasil pelos africanos escravizados em várias regiões da África Ocidental e África Central. Essas divindades são da rica, complexa e elevada Mitologia Fon. Os vários grupos étnicos - como fon, ewe, fanti, ashanti, mina - ao chegarem no Brasil, eram chamados djedje (do yoruba ajeji, 'estrangeiro, estranho'), designação que os yoruba, no Daomé atribuíam aos povos vizinhos. Mawu é o Ser Supremo dos povos Ewe e Fon. Os Voduns no Jeje são basicamente os da Mitologia Ewe e Fon.


  • Lissá, que é masculino, e também co-responsável pela Criação.
  • Dangbé,O Dangbé é a serpente sagrada que representa o espírito de Vodum Dan.
  • Loko, É o primogênito dos voduns, dono da joia de mahi que e o rungbe
  • Gu (ou Gun), Vodun dos metais, guerra, fogo, e tecnologia.
  • Heviossô, Vodun que comanda os raios e relâmpagos.
  • Sakpatá, Vodun da varíola.
  • Dan, Vodun da riqueza, representado pela serpente do arco-íris.
  • Agué, Vodun da caça e protetor das florestas.
  • Agbê, Vodun dono dos mares.
  • Ayizan, Vodun feminino dona da crosta terrestre e dos mercados.
  • Agassu, Vodun que representa a linhagem real do Reino do Dahomey.
  • Aguê, Vodun que representa a terra firme.
  • Legba, O caçula de Mawu e Lissá, e representa as entradas e saídas e a sexualidade.
  • Fa , Vodun da adivinhação e do destino.
  • Aziri , vodun das águas doces.
  • Possun , vodun do po e da terra seca representado pelo tigre.
  • Bessem, É o dono das águas doces no Savalú, do qual é patrono.
  • Sogbô, Vodun do trovão da família de Heviossô.
  • Tobossi, Naê ou Mami Wata, são todas as Voduns femininas das ezins jeçuçu, jevivi e salobres.
  • Nanã, Vodun considera por todos os adeptos do Culto Vodun como a grande Mãe Universal.



Na mitologia yoruba, Olorun é o Deus supremo do povo yoruba, que criou as divindades ou semideus chamados Orixás, guardiões dos elementos da natureza, para representar todos os seus domínios aqui no aye.


  • Exu, orixá guardião dos templos, encruzilhadas, passagens, casas, cidades e das pessoas, mensageiro divino dos oráculos.
  • Ogum, orixá do ferro, guerra, fogo, e tecnologia.
  • Oxóssi, orixá da caça e da fartura.
  • Logunedé, orixá jovem da caça e da pesca
  • Xangô, orixá do fogo e trovão, protetor da justiça.
  • Ayrà, Usa branco, tem profundas ligações com Oxalá e com Xangô.
  • Obaluaiyê, orixá das doenças epidérmicas e pragas, orixá da cura.
  • Oxumaré, orixá da chuva e do arco-íris, o Dono das Cobras.
  • Ossaim, orixá das Folhas sagradas, conhece o segredo de todas elas.
  • Oyá ou Iansã, orixá feminino dos ventos, relâmpagos, tempestades, e do rio Níger
  • Oxum, orixá feminino dos rios, do ouro, jogo de búzios, e protetora dos recém nascidos.
  • Iemanjá, orixá feminino dos lagos, mares e fertilidade, mãe de muitos orixás.
  • Nanã, orixá feminino dos pântanos e da morte, mãe de Obaluaiê.
  • Yewá, orixá feminino do Rio Yewa, considerada a deusa da beleza, da adivinhação e da fertilidade.
  • Obá, orixá feminino do Rio Oba, uma das esposas de Xangô, é a deusa do amor.
  • Axabó, orixá feminino da família de Xangô
  • Ibeji, divindade protetor dos gêmeos
  • Irôco, orixá da árvore sagrada, (gameleira branca no Brasil).
  • Egungun, Ancestral cultuado após a morte em Casas separadas dos Orixás.
  • Iyami-Ajé, é a sacralização da figura materna, a grande mãe feiticeira.
  • Omulu, Orixá da morte.
  • Onilé, orixá do culto de Egungun
  • Onilê, orixá que carrega um saco nas costas e se apóia num cajado.
  • Oxalá, orixá do Branco, da Paz, da Fé.
  • OrixaNlá ou Obatalá, o mais respeitado, o pai de quase todos orixás, criador do mundo e dos corpos humanos.
  • Ifá ou Orunmila-Ifa, Ifá é o porta-voz de Orunmila, orixá da adivinhação e do destino, ligado ao Merindilogun.
  • Odudua, orixá também tido como criador do mundo, pai de Oranian e dos yoruba.
  • Oranian, orixá filho mais novo de Odudua
  • Baiani, orixá também chamado Dadá Ajaká
  • Olokun, orixá divindade do mar
  • Olossá, Orixá dos lagos e lagoas
  • Oxalufon, Qualidade de Oxalá velho e sábio
  • Oxaguian, Qualidade de Oxalá jovem e guerreiro
  • Orixá Oko, orixá da agricultura

Fonte: http://pt.wikipedia.org/

sábado, 20 de março de 2010

história de peixe grande (lenda africana)

por Zéh

Diz uma lenda, do vasto universo cultural de África, que nas profundezas de todo rio mora um Peixe Grande. Cercado sempre de peixinhos menores e invisíveis o Peixe Grande é o guardião do Rio, enquanto ele estiver presente nada de ruim pode acontecer com o Rio ou com sua fauna e flora.

Esta história fala de um tempo em que o homem podia ouvir e falar com o Rio, essa história fala de uma mulher que não conseguia engravidar e da fertilidade que o Rio lhe proporcionou. Fala também da vontade incontrolável de comer peixe, do momento em que o homem deixou de escutar o Rio, a natureza e das suas conseqüências.

A história se desenrola sempre acompanhada das cantigas, acalantos, canções e músicas instrumentais, e trás no repertório musical composições da cultura popular brasileira, além de músicas próprias, compostas pela Cia. Duberrô para esta história.

É uma história para todas as idades, que trás na sua essência a consciência ecológica de um tempo não tão distante assim em que o homem era, ele mesmo, o Peixe Grande, relacionando-se com a natureza como um filho com a sua mãe.

Fonte: http://feirapreta.ning.com/