quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O Machismo Mata! - Sequestro e morte da menina Eloá


Sobre o Reality Show que foi o sequestro e morte da menina Eloá, segue abaixo, email recebido de uma amiga, trazendo alguns textos de mulheres engajadas na luta que objetiva acabar com o patriarcado e sua conseqüente misoginia. Os textos nos trazem exemplos históricos da violência praticada contra mulheres. Mas é sabido que a coisa é ainda muito mais feia e complexa. Para além da imensa pirotecnia que se faz para as conquistas (legítimas) da mulher, há ainda muitíssimo o que fazer para se reverter um quadro extremamente desfavorável, que muda muito lentamente...


Queridas(os)

Acho fundamental que as mulheres leiam os textos, abaixo, enviados pelas feministas e reflitam sobre eles. E também os irmãos, companheiros, filhos e pais de mulheres, arriscadas a passarem por essa situação. Só tenho a crescentar uma questão: a da beleza da menina assassinada, lembrada a todo minuto pelas redes de televisão. Isso me dá um frio na espinha.

Me pergunto se a população e a imprensa ficariam tão penalizadas se a Eloá fosse feia e desdentada. Seria então aplicada a máxima "viniciana" 'as feiam que me desculpem, mas beleza é fundamental', pelos coronéis do GATE?

Abraço,

Catarina


Companheiras e Companheiros,

Estamos todas revoltadas com o desfecho do sequestro da jovem Eloá. Esse caso, como outros revela o machimo que segue orientando a postura dos homens em qualquer que seja a posição, a de Sequestradores ou de Policiais.

Seguem textos e e-mails de mulheres que expressaram em palavras nossa indignação!

Feminicídio ao vivo - o que nos clama Eloá

Maria Dolores de Brito Mota
Socióloga
Universidade Federal do Ceará


Maria da Penha Maia Fernandes
Inspiradora da lei Maria da Penha 11340
Coordenadora de Honra da Coordenadoria da Mulher
Prefeitura Municipal de Fortaleza.


Maria Dolores de Brito Mota


Maria da Penha Maia Fernandes


Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira.

No Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970, as denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra suas parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto da defesa da honra, e desenvolveram-se ações de movimentos feministas e democráticas pela punição aos assassinos de mulheres.

A alegação da defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema vai emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela sociedade por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres. O assassinato de Ângela Diniz em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a absolvição do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma reação pela defesa da "honra".

Na verdade, as circunstâncias mostravam um crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o relacionamento amoroso e a inconformidade do assassino com este fim. Essa decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino. Outro crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a campanha "quem ama não mata".

Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar.

O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual. Um crime onde não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega - o feminino. Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo, da vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens.

O feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o "extremo de um continuum de terror anti-feminino", incluindo várias formas de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações, agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública.

O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela - base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado.

Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato[i] é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho para os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de violência de gênero contra as mulheres.

Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das Delegacias de Apoio às Mulheres - DEAMs, que hoje somam 339 no país, o surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de apoio que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando trabalho de denúncia e conscientização social para o combate e prevenção dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a retirada do termo "mulher honesta" e a adoção da pena de prisão para agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres.

Mas, ainda assim as violências e o feminicídio continuam a acontecer. Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram vítimas de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005, 118 mortes e em 2004, mais 105 casos[ii]. As mulheres estão num caminho de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do patriarcado continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos. É preciso que toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas que sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades, desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de "um jovem em crise amorosa", num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?


[i] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debate emergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006.

[ii] Dados disponíveis em: http://www.patriciagalvao.org.br/apc-aa-patriciagalvao/home/noticias.shtml?x=1076
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Quem quer e não possui... mata porque ama!


Kaliani Rocha

"Quero Eloá, amo a Eloá", essa é a frase que se tornou símbolo do crime cometido por um homem violento e homicida. Frase que tirou o critério de crime da situação e colocou em cena a figura do homem apaixonado e desesperado pela falta do amor da sua vida.

Enquanto o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar esperava durante longos cinco dias para saber se o homem violento e homicida iria se entregar, as pessoas se perguntam porquê os policiais não atiraram nele nas seis vezes que ele ficou na mira dos atiradores de elite.Vejo algumas pessoas se perguntarem de quem Eloá foi vítima. Aquela cegueira que tanto, nós feministas, denunciamos, ficou absurdamente evidente nesse caso que torturou de expectativa e medo a população brasileira.

O coronel da tropa de choque de São Paulo, Eduardo José Félix, diz que se atirasse num rapaz de 22 anos em crise amorosa, todos julgariam que ele matou um rapaz sem antecedentes criminais, trabalhador, por está desesperado pela perda da namorada, sem nem ao menos esperar uma negociação. Não só eu, mas acredito que muitas e muitas pessoas tremeram ao ouvir a declaração do coronel, que ao invés de decidir cumprir seu dever como policial, na defesa e proteção da vida das adolescentes enclausuradas e ameaçadas, resolveu proteger o "pobre rapaz vítima de uma crise amorosa". Como as coisas podem ser tão distorcidas assim? Como se permite, apesar de tanto treinamento e experiência, que uma refém volte ao cativeiro?

O que mais me chocou, como ser humano, foi acompanhar Eloá viva na janela, por várias vezes e depois vê-la, rodeada de policiais, com um tiro na cabeça. O que mais me chocou como mulher, foi sentir o respeito pelo "rapaz apaixonado" e o descaso pela vida das duas adolescentes que estavam com o direito de viver ou morrer nas mãos de Lindembergue.

Na mídia e no ato passivo da polícia, ficou evidente que não se tratava de um bandido nem de um criminoso, mas de um rapaz com o futuro inteiro pela frente, que estava num momento de loucura. E onde fica o presente daquelas meninas? Onde fica o futuro delas? Por que os outros reféns, rapazes, foram logo liberados?

Em nenhum momento percebi o direito à vida ser discutido. O que se falava era que elas eram lindas e inseparáveis, e Eloá a menina mais bonita da escola. Ela é uma menina bela, ponto.

Como é que um homem maior de idade, que mantêm duas adolescentes de 15 anos na mira de uma arma de fogo em cativeiro por cinco dias, não é um criminoso? Por que tanto respeito a ponto de invadir o apartamento com balas de borracha apenas? As "balas de verdade" do "pobre rapaz" a vida de Eloá, e deixaram marcas para sempre no rosto de Nayara.

Amor? Até quando as mulheres vão morrer por essa coisa estúpida e perigosa que chamam de amor? Até quando os homens vão se sentir tão proprietários da vida das mulheres a ponto de decidir se ela continua ou acaba?

Evidentemente que ele não tinha nada a perder. Como negociar com um bandido se você não tem o que ele quer? Ele queria a propriedade sobre a vida de uma mulher, suas decisões, seu afeto, sua vida... e já que ele, na sua lógica, não a possuía mais, a penetrou e a feriu de morte com uma bala em seu ventre, região da sexualidade e da vida. E para acabar com a possibilidade enfim, dela continuar vivendo sua própria vida, suas próprias decisões, o veredicto final do "pobre rapaz": um tiro que atravessou sua cabeça.

E por que ele teve tanta liberdade de decidir por isso? Porque ele é "o cara, o príncipe do gueto", e príncipes costumam decidir quem vive e quem morre.

Agora como consolo, a mídia mais uma vez faz aquele velho discurso: "os órgãos da menina vão beneficiar pelo menos oito pessoas", aquele discurso da bondade, do "não foi tudo perdido", a diretora do hospital declara: "a gente acredita que vai ter grande sucesso. Apesar da dor da família, de todo esse estresse emocional que esse seqüestro causou, a gente tem alegria, com certeza, de fazer muitas pessoas que tinham o prognóstico fechado viverem".

Sucesso? Estresse? Alegria? Essas palavras me trazem aquela sensação de filme já visto, do desvio das atenções, do apelo à doação de órgãos, o que de fato é absolutamente legítimo, mas que neste caso não pode borrar a atenção do assassinato de Eloá por um homem violento que se achava seu dono.

Apesar de tudo, o delegado do caso, Luis Carlos dos Santos, ainda tem muitas dúvidas antes de dar qualquer pronunciamento sobre a qualificação do crime: "Precisamos saber principalmente o que o levou a tomar a decisão de atirar nas vítimas". Seria para rir se não fosse tão trágico!

Infelizmente, as mulheres ainda continuam lacradas, e neste caso, lacrada, perfurada no útero por uma bala, eliminada da sua condição de "ser", pelo dono da situação, que decidiu que sem ser de sua propriedade, não havia nenhum motivo para continuar viva, ela já não tinha mais nenhum valor.

Espero que, no julgamento ao menos, esse homem violento, homicida premeditado e seqüestrador, seja visto como tal, e não como um "trabalhador, calmo, amigo, companheiro e rapaz desesperado" como quer a mídia e a polícia.

E eu fico aqui, me perguntando por que tanta condescendência com os homens violentos e assassinos e tão pouco direito para as mulheres nessa sociedade que se diz democrática.
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A "crise amorosa" do Coronel Felix

Ana Reis

NEIM-UFBA


A justificativa do coronel Eduardo Felix para explicar porque não atiraram num sequestrador que se outorgou direito de morte sobre duas mulheres, baseou-se no mito do amor: " é um garoto de 22 anos de idade, sem antecedentes criminais e com uma crise amorosa". O criminoso, pois sequestro é crime hediondo, motivado por ódio, transforma-se em um garoto enamorado, nas mãos de quem o Coronel entregaria seu filho. O irmão de Nayara, que sabia o que estava em cena, não entrou no cativeiro.

Em cena, o direito de propriedade ultrajado do macho sobre as fêmeas da espécie. A mulher que se recusa a se submeter a essa lei é morta. É mais uma a ingressar numa enorme lista. O Coronel tinha essa lei em mente. Baseado nela, seu julgamento condenou Eloá à morte.

Não podemos deixar passar mais esse caso emblemático do pacto dos patriarcas sobre a posse das mulheres. A imprensa foca em quem atirou, como se não se tratasse de machos se defendendo, não importa as consequências para as mulheres.Tudo foi feito para poupar o criminoso. Até deixar a amiga entrar de novo no cativeiro! E o Serra corroborando a ação da PM.

Crime passional não existe! O crime é a misoginia do sequestrador, dos policiais, do governador e da mídia! As mulheres morrem porque os homens odeiam quando elas são mulheres, elas mesmas, em vez de SUAS namoradas, SUAS esposas, SUAS mães. Não se trata de amor, trata-se de ódio. Ou isso fica claro ou nunca iremos dar conta da "violência" contra a mulher.

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Eloá. O que as mídias e os especialistas não discutem

Sandra Raquew dos Santos Azevedo
jornalista.
Sábado, 18 de Outubro de 2008

Há menos de 24h do trágico desfecho do seqüestro de Eloá Cristina Pimentel, por Lindemberg Alves, todos atônitos procuramos "compreender" via mediação dos meios de comunicação social e de especialistas da segurança pública, psicólogos, e outros, um fato presente cotidianamente no noticiário: o assassinato de mulheres.

Muitas são as explicações que tentam dar conta do comportamento do jovem, cujo perfil durante o processo de negociação fora retratado pelos meios como de um rapaz tranqüilo, trabalhador, que tinha planos para casar. "Dificuldade de lidar com as frustrações"; "comportamento passional", "de tolerância muito baixa às frustrações", entre outros argumentos são discutidos publicamente em jornais, sites, rádio, enfim, em todo processo de agendamento desta lamentável crônica de mais uma tragédia midiatizada.

Inúmeros aspectos deste acontecimento são ressaltados na cobertura: o lugar, os protagonistas, o tempo, amigos, imagens, os momentos de negociação, os lugares de origem de Eloá e Lindemberg, as imagens... Todavia há um aspecto a ser considerado nesta notícia, e que passa intocado na cobertura de crimes que possuem semelhança com o homicídio de Eloá, o fato de que eles se relacionam com as desigualdades de gênero. Se nos negarmos a discutir também nos noticiários esta face da violência, será muito difícil à superação de algo que pode ser considerado, lamentavelmente, um padrão cultural vigente, a prática de crimes contra as mulheres.

Um breve monitoramento de mídia permite perceber a brutalidade e reificação de crimes como estes: eles não são apenas crimes passionais, podem ser situados numa teia complexa de construção de valores sociais que forjam um feminino fraco, vulnerável, incapaz e sem condições de decidir a própria vida, em contraposição a um modelo de masculinidade rígido e legitimado socialmente a partir da força, da dominação e do controle. São de certa maneira estes alguns dos elementos que mantém os mecanismos psíquicos do poder na constituição do sujeito e a na construção da sujeição.

Perceber os gêneros como processo de mediação do social é urgente para nos darmos conta da violência contra a mulher como um fenômeno social cujo aparecimento cotidiano nas mídias também precisa ser interpretado, refletido com e a partir dos veículos de comunicação e tendo como foco o papel social dos profissionais de imprensa.

A motivação de Lindemberg em manter seqüestrada Eloá e tentar por fim a vida da jovem se inter-relaciona com outros fatos conhecidos da sociedade brasileira, como os assassinatos de Ângela Diniz, Sandra Gominde, Daniela Perez, e ainda de inúmeros casos de violência e homicídios femininos que são noticiados, mas que carecem não de uma tentativa de tentar compreender o comportamento masculino, mas de questionar os valores sociais que se reproduzem nas trocas simbólicas e tecem ainda, tristemente, este predomínio do falo que oprime e extermina.

O tiro na virilha de Eloá não é só uma metáfora, mas uma expressão do ódio da tentativa frustrada de continuar mantendo o exercício do controle sobre o corpo das mulheres, por isto me sinto hoje também transpassada por esta bala.

Numa das notícias veiculadas sobre o Caso Eloá, dois personagens sobrenaturais surgiram: um anjinho e um diabinho que acompanhavam Lindemberg. Parece inacreditável, mas este recurso, muito comum entre homens que praticam violência contra as mulheres, aparece mais uma vez como uma máscara, uma performance que busca esconder o lado perverso de um imaginário social que em momentos como este é despertado pelos disparos protagonizados por um homem que representa os mecanismos simbólicos forjados socialmente e que negam cotidianamente às mulheres o seu direito a vida.


http://etnografiasdoinvisivel.blogspot.com/2008/10/elo-o-que-as-mdias-e-os-especialistas.html

terça-feira, 21 de outubro de 2008

o show tem que continuar... luiz carlos da vila ☼1949 - +2008


O show tem que continuar

O teu choro já não toca meu bandolim
Diz que minha voz sufoca teu violão

Afrouxaram-se as cordas e assim desafina
E pobre das rimas da nossa canção

Hoje somos folha morta, metais sem surdina
Fechada a cortina, vazio o salão...

Se os duetos não se encontram mais
E os solos perderam emoção;

Se acabou o gás
Pra cantar o mais simples refrão;

Se a gente nota que uma só nota já nos esgota
O show perde a razão.

Mas iremos achar o tom, um acorde com um lindo som
E fazer com que fique bom outra vez, o nosso cantar.

E a gente vai ser feliz, olha nós outra vez no ar
O show tem que continuar...

Nós iremos até Paris arrasar no Olímpia
O show tem que continuar...

Olha o povo pedindo bis, os ingresso vão se esgotar
O show tem que continuar...

Todo mundo que hoje diz acabou, vai se admirar
Nosso amor vai continuar...

(Arlindo Cruz / Sombrinha / Luiz Carlos da Vila)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

100 anos de...

http://www.jazzmais.com.br/fotos/

Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola, (Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1908 — Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1980) foi um cantor, compositor e poeta brasileiro.

Era um dos sambistas que compunham a velha-guarda da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, sendo considerado o responsável tanto pela escolha do nome, como das cores adotadas pela Escola (verde e rosa). A escolha das cores foi uma homenagem ao seu amado Fluminense, clube de futebol do Rio de Janeiro que utiliza-se de combinações mais sóbrias das mesmas cores (grená, verde escuro e branco).

Cartola compôs, sozinho ou com parceiros, mais de quinhentas canções, como "As Rosas Não Falam", "Alvorada", "O Mundo é um Moinho" e "O Sol Nascerá", tendo sido esta última regravada mais de 600 vezes. Suas canções são musicalmente bastante elaboradas e suas letras têm uma carga poética muito forte. [http://pt.wikipedia.org/wiki/Cartola_%28sambista%29]


POIS É, CEM ANOS DE CARTOLA... E AÍ?!

Bem, como bem diz o Poeta Caio Prado, em samba composto para marcar, criticamente, a passagem de outro Bamba de Mangueira, a saber, Mestre Carlos Cachaça: "Agora que o sambista foi embora / Irá sair mais troféu para homenagear..." Como sempre, a mesma coisa se repete e se repete e se repete.

No último sábado, 11.10.2008, se vivo fosse, Cartola teria completado cem anos de idade. Por conta disso mesmo é que um sem números de homenagens aconteceu por tudo que é canto. Não, não estou querendo dizer que tal não deveria ter ocorrido e nem que seja coisa não merecida. Muito longe disto, acho, mesmo, que tudo é muito pouco. E digo isto não em relação às diversas comunidades de samba que prestaram, legítimo, tributo ao grande mestre.

O que me deixa indignado é o papel dos homenageadores oficiais de plantão, os mesmos encarregados de escrever, propagar e difundir a história oficial. São eles (de direita ou de esquerda) guardiães do Status Quo, incapazes de perceber e ou, verdadeiramente, reconhecer os ditos de baixo como portadores de saber, cultura... enfim, como sujeitos da história, junto com os de sua pertença e não como um fenômeno destacado dos seus, um iluminado que por algum ato divino foi dotado de um intelecto próximo ao que possui aqueles ditos de cima.

É interessante notar como muitos artistas medíocres são considerados excelentes e constroem carreiras sólidas as quais lhes propiciam viver bem, auferindo bons rendimentos e eticétera e etcétera e tal. Ao mesmo tempo, gênios como Cartola (negros e ou não-brancos), p. e., terminam quase sempre na pobreza ou na miséria. É incrível este reconhecimento que não propicia mínima ascensão. Ascenção que pode ser em certa medida do indivíduo, mas que deve ser, na principal medida, do seguimento ao qual tal indivíduo é pertença - ascenção à condição de cidadania plena, ainda distante do alcance do negro.

Sem o que, entendo, é de uma extrema hipocrisia, cinismo mesmo, dizer por aí que gosta de samba... É incompreensivo e inaceitável (não sendo esquisofrênico) admitir que a sociedade realmente goste de samba, p. e., e os portadores da referida cultura sejam relegados a condição de gente de menor valia.


http://musicodobrasil.com.br/loronixcontent/capasloronix/E/EB/Cartola-Front.jpg


Não sei se consigo me fazer entender. Gosto de usar um exemplo que muito bem ilustra o que estou dizendo. O Zicartola:


O Zicartola surgiu em fins de 1963, por iniciativa de um grupo de jovens empresários que, quase todas as noites, estavam na casa de Cartola e Zica para ouvir os sambas dele e saborear os quitutes dela (o casal morava na sede da Associação das Escolas de Samba, num sobrado da rua dos Andradas, no Centro do Rio de Janeiro). Na verdade, com o Zicartola, os financiadores pretendiam apenas ter um lugar onde a cerveja não faltasse nunca, portanto, sem as dificuldades enfrentadas na rua dos Andradas, onde, depois das sete horas da noite, não havia um só botequim aberto. Acabaram por inventar a primeira casa de samba do Brasil, uma casa que devolveria a antiga projeção a vários compositores veteranos e projetaria outras tantos novatos, entre os quais Paulinho da Viola e Élton Medeiros, sendo que este, embora compondo sambas havia alguns anos, ainda não era um nome conhecido.


Um público de 120 pessoas bastava para superlotar o Zicartola, instalado num velho sobrado da rua da Carioca, mas a procura era muitas vezes superior à sua capacidade. Às quartas-feiras,centenas de pessoas faziam fila na porta da casa na esperança de um lugar. É que na quarta-feira promovia-se a “noite da homenagem”, em que o Zicartola recebia alguns dos maiores nomes da música popular brasileira. Nomes como os de Dorival Caymmi, Antonio Carlos Jobim, Ataulfo Alves, Eliseth Cardoso, Ciro Monteiro e muitos outros apresentaram-se lá... No final do show, recebiam o diploma da “Ordem da Cartola Dourada”, uma invenção de Hermínio Belo de Carvalho para compensar a falta do pagamento de cachê, o que, aliás, seria impossível pagar, pois, apesar do sucesso, a casa nunca deu lucro."


Fonte: http://www.livrariaargumento.com.br/revista/artigo/cronicanov.pdf


A leitura que faço é a seguinte: Os da casa-grande, historicamente, se deleitam com a cultura; com as festas e celebrações dos negros muito mais aprazíveis, apesar de não necessariamente entenderem/compreenderem os verdadeiros significados das coisas dos da senzala, quilombo, gueto, etc. Mas importa é que gostam e querem pra si - tomam e usam.

Pois bem, o Zicartola era a casa-grande para onde os senhores levaram Cartola e Dona Zica para lhes servir, cantando e cozinhando. Os negros, lá, iam para entreter aos seus senhores. Até que a brincadeira acabou...

Ora, devemos sim cantar e exaltar Cartola e todos os nossos bambas. E isto só pode acontecer, de fato, se os cantarmos verdadeiramente. Se mergulharmos na profundeza de suas letras. Se buscarmos o contexto em que elas foram geradas. Se buscarmos minimamente conhecer a história do homem, este muito além e mais profundo que o artista. Mas o homem em seu contexto social, em sua relação com os de sua pertença e na relação desta pertença com a sociedade.

Para mim é deste modo que podemos e devemos homenagear aos nossos. E os outros (os brancos; os não-negros), ainda que pobres, vão nos homenagear e aos nossos quando deixarem de nos usurpar as coisas (materiais e ou imateriais); quando assumirem que nos devem reparação e, efetivamente, realizá-la. Tal homenagem, vamos conquistá-la e...

E, por hora f ico por aqui...

SALVE ANGENOR DE OLIVEIRA! SALVE CARTOLA!