terça-feira, 31 de julho de 2007

e lá vem mais uma passeata-procissão...

E lá vem mais uma passeata-procissão conclamada pelo terrorismo midiático propagador da comoção exacerbada que assola àqueles pertencentes às classes privilegiadas de nosso Brasil... toda vez que são acometidos de alguma tragédia, independente da proporção da mesma. Agora é a explosão do air bus da TAM. Ah, esse apagão aéreo! Bem, aí se esquece das péssimas condições das estradas e, numa histeria absurda, rumam os imbecis para as estradas para morrerem aos montes, imprudentes que são!

Mas, do apagão dos transportes urbanos, para ficar num único exemplo, ninguém fala nada. Não incomodam as filas enormes nos terminais de ônibus, peruas, etc. Não incomodam o escasso número de coletivos, nem as tarifas de preços exorbitantes e condições precárias e, muito menos, o modo que os conduzem os motoristas embrutecidos que agem quais transportadores de gado (os quais também merecem melhor tratamento) ou de objetos, arrancando e brecando e proporcionando solavancos que põem em risco os passageiros de quaisquer idades, mas principalmente crianças e idosos. Danem-se! Os que podem andam em seus carros e não importa que fiquem, muitos minutos e mesmo horas, engarrafados no trânsito. O carro cada vez mais uma roupa triunfa imbecilmente – transporte unitário - sobre o transporte coletivo. Nem vou discorrer sobre as ridículas malhas metroviária e ferroviária.

Retomando o início do texto, tal terrorismo surge a todo o momento: ora tocado a reboque da questão do apagão aéreo (caiu um avião da Gol, explodiu um da TAM); ora a reboque do apagão da segurança (latrocínio num bar de classe média, assalto em condomínio de luxo) e etc. e etc. e tal...

O que me ferra a idéia é o fato de as tragédias que assolam os ditos “de baixo” não causarem a menor indignação: sejam os muitos acidentes fatais com transportes de bóias-frias; as muitas chacinas que assolam as periferias; as muitas mortes por doenças das mais banais que dizimam crianças; o aumento de sem tetos e outras quizilas mais... Aqui, falo da gente Preta, Parda, mestiça; dos não brancos e mesmo dos brancos ferrados que, querendo ou não, são pretos ou “coisa que os valham” ante essa “nossa democrática sociedade”.

Bem, só posso concluir que para essa mídia dos grandes veículos, ligada aos interesses dos dito “de cima” e para um bando de gente que com ela se identifica, no que diz respeito aos “de baixo” querem mais é que eles: PHODDAM-SE!!!

E eles vão, mesmo, phoddendo-se e sendo phoddidos e, pior, sem se indignarem; sem reclamar, a não ser aquelas reclamações automatizadas, sem nem uma reflexão... Gritam sim, esbravejam veementemente quando conclamados pelo aparato midiático dos “de cima” descontentes com suas “mazelas” que nunca é demais dizer: os apagões: aéreos, os da segurança dos condomínios de luxo, os das importações da Daslu, etc. E toma passeatas, procissões, camisetas brancas, velas, choros (compra e venda) e... por aí vai.

kardecismo e bossa nova

Quando postei o artigo “Uma declaração de amor”, publicado originalmente no Blog “Histórias do Brasil”, uma amiga postou um comentário. A bem da verdade, ela enviou-me o comentário e eu o postei. Concordo com algumas coisas que minha amiga colocou, mas tenho algumas ponderações a fazer.

Ora, o Kardecismo foi criado por pessoas brancas, ditas cultas, que, a meu ver, não poderiam (não gostariam de) se submeter a algo vindo de pretos... Aqui, mesmo sabendo do perigo das analogias não resisto à seguinte: deu-se aí uma bossanovização, numa referência aqueles que dizendo “gostar” do samba não resistiram a tentação de transforma-lo, branqueá-la e “criar” a bossa nova. E, creio, alguns pretos a ele recorreram e recorrem por ser, esse espiritismo kardecista, mais aceito socialmente. Posso até estar enganado e, se assim o for, prove-me o contrário quem puder!

E o que seriam pessoas cultas? Por acaso aquelas adestradas segundo a “cultura ou valores culturais dos ditos ‘de cima?’” Do modo como eu entendo cultura, todos a temos. Somos, todos diferentes individualmente e pertencemos a grupos de indivíduos que também diferem-se entre si e nos quais forjamos nossas referências, nossos valores culturais que nos vêm na esteira da nossa história familiar, na esteira de nossa história étnica, etc.

É muito interessante perceber como nossa mente permanece, ainda e num altíssimo grau, colonizada – predomina um pensar europeizante. Incrível como tudo que nos guia (independente do viés, do campo, da seara, etc.) tem que se fundamentar em algo de matriz eurocentrista – inexoravelmente.

Ao invés de João Camargo, um Preto Velho, prefere-se, em contraposição, um Allan Kardec, francês... E tudo aquilo que é afro-descendente segue como coisa de menos valia. E é um tal de dar vivas à “Mesa Branca” que se fosse só pelos brancos não me incomodaria. O problema, para mim, é quando negros se deixam levar... É fantasticamente incrível... Eu, particularmente, prefiro dar vivas à “Mesa Preta”, feita de ébano!

Claro que não desconsidero o fato de que muito do que está positivado da liturgia afro-brasileira está, coincidentemente, dominado por não negros... gente branca mesmo! Incrível, não?

Negros, valorizemo-nos! E às nossas coisas, nosso legado! Tomemos de volta o que é nosso!!! Deixemos de usar o que nos é dado nessa vil e incessante relação de escambo cultural que faz tirar-nos a alma; deixar-nos à mercê dessa eterna dominação!

quinta-feira, 26 de julho de 2007

a. c. m. é morto... pois é!

Pois é, enfim morreu o desgraçado, mas e daí? Ainda outro dia, que interessante, quase morre o neto! Já pensaram: o cramulhão que assistiu à morte do filho, assistindo também à do neto? É.... mas, a mulher errou a facada! Pois é... Acontece, não é mesmo?!

A. C. M. morreu... Pois é... já foi e foi bem tarde o F. D. P.!!!

terça-feira, 24 de julho de 2007

para refletir...

"A empirização do tempo e a dinamização do espaço retiram o caráter de absolutos do espaço e do tempo."
...................................................................................................... Marinho, S. C.

a minha poesia sou eu

-----------------------------------------
----não, Poesia:
----não te escondas nas grutas do meu ser,
----não fujas à Vida.
----quebra as grades invisíveis da minha prisão,
----abre de par em par as portas do meu ser

----sai…
----sai para a luta (a vida é luta)
----os homens lá fora chamam por ti,
----e tu, Poesia és também um Homem.
----ama as Poesias de todo o Mundo,


ama os Homens
solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
confunde-te comigo…

vai, Poesia:
toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
a minha Poesia sou eu.

..............................................Amilcar Cabral

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Amílcar Cabral (biografia)


Amílcar Cabral nasceu em Bafatá, Guiné-Bissau, aos 12 de Setembro de 1924, filho de Juvenal Lopes Cabral e de Dona Iva Pinhel Évora. Aos 8 anos de idade, sua família mudou-se para Cabo Verde. Mindelo (ilha de São Vicente) passou a ser a cidade de sua infância, onde completou o curso liceal em 1943. No ano seguinte, mudou-se para a cidade de Praia, na ilha de Santiago, e começou a trabalhar na Imprensa Nacional, mas só por um ano, pois tendo conseguido uma bolsa de estudos, no ano de 1945 ingressou no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Após graduar-se em 1950, trabalhou por 2 anos na Estação Agronómica de Santarém. Contratado pelo Ministério do Ultramar como adjunto dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné, regressou a Bissau em 1952. Iniciou seu trabalho na granja experimental de Pessube percorrendo grande parte do país, de porta em porta, durante o Recenseamento Agrícola de 1953 adquirindo um conhecimento profundo da realidade social vigente. Suas atividades políticas, iniciadas já em Portugal, reservam-lhe a antipatia do Governador da colônia, Melo e Alvim, que o obriga a emigrar para Angola. Nesse país, une-se ao MPLA. Em 1959, Amílcar Cabral, juntamente com Aristides Pereira, seu irmão Luís Cabral, Fernando Fortes, Júlio de Almeida e Elisée Turpin, funda o partido clandestino PAIGC - Partido Africano para a Independência da Guiné e do Cabo Verde. Quatro anos mais tarde, o PAIGC sai da clandestinidade ao estabelecer uma delegação na cidade de Conacri, capital da República de Guiné-Cronacri. Em 23 de janeiro de 1963 tem início a luta armada contra a metrópole colonialista, com o ataque ao quartel de Tite, no sul da Guiné-Bissau, a partir de bases na Guiné-Conacri.

Em 1970, Amílcar Cabral, fazendo-se acompanhar de Agostinho Neto e Marcelino dos Santos, é recebido pelo Papa Paulo VI em audiência privada. Em 21 de novembro do mesmo ano, o Governador português da Guiné-Bissau determina o início da operação "Mar Verde", com a finalidade de capturar ou mesmo eliminar os líderes do PAIGC, então aquartelados em Conacri. A operação não teve sucesso.

Em 20 de janeiro de 1973, Amílcar Cabral é assassinado em Conacri, por dois membros guineenses de seu próprio partido. Amílcar Cabral profetizara seu fim, ao afirmar: "Se alguém me há de fazer mal, é quem está aqui entre nós. Ninguém mais pode estragar o PAIGC, só nós próprios." Aristides Pereira, substituiu-o na chefia do PAIGC. Após da morte de Cabral a luta armada se intensifica e a independência de Guiné-Bissau é proclamada unilateralmente em 24 de Setembro de 1973. Seu meio-irmão, Luis de Almeida Cabral, é nomeado o primeiro presidente do país.


Factos interessantes
Na certidão de nascimento consta o nome Hamílcar, homenagem do seu pai ao célebre general cartaginês Hamilcar Barca, herói da Primeira Guerra Púnica.

Destaque no time de futebol do Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, Amilcar Cabral chegou a ser convidado para ingressar no Sport Lisboa e Benfica.

Cabral endereçou várias cartas ao governador da época sob o pseudônimo Abel Djassi.


---------------------------------------------------------------------------------------------
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Amílcar_Cabral

os dogmas inconscientes

--------------------------------------------------------------------------------------------
Podemos até descobrir o erro de um ser, desvelar a inanidade de seus desígnios e de suas empresas; mas, como arrancá-lo de seu en­carniçado apego ao tempo, quando esconde um fanatismo tão inve­terado quanto seus instintos, tão antigo quanto seus preconceitos? Trazemos conosco, como um tesouro irrecusável, um monte de cren­ças e de certezas indignas. Mesmo quem consegue desembaraçar-se delas e vencê-las, permanece — no deserto de sua lucidez — ainda fanático: de si mesmo, de sua própria existência; humilhou todas as suas obsessões, salvo o terreno em que afloram; perdeu todos os seus pontos fixos, salvo a fixidez da qual provém. A vida tem dogmas mais imutáveis que a teologia, pois cada existência está an­corada em infalibilidades que fazem empalidecer as elucubrações da demência ou da fé. O cético mesmo, apaixonado por suas dúvi­das, mostra-se fanático pelo ceticismo. O homem é o ser dogmático por excelência; e seus dogmas são tanto mais profundos quando não os formula, quando os ignora e os segue.

Todos nós cremos em muito mais coisas do que pensamos, abri­gamos intolerâncias, cultivamos prevenções sangrentas e, defendendo nossas idéias com meios extremos, percorremos o mundo como for­talezas ambulantes e irrefragáveis. Cada um é para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como nós protegemos nosso eu*; e este eu, se o assediamos com dúvidas e o colocamos em questão, é apenas por uma falsa elegância de nosso orgulho: a causa está ganha de antemão.

Como escapar ao absoluto de si mesmo? Seria preciso imagi­nar um ser desprovido de instintos, que não portasse nenhum nome e a quem fosse desconhecida sua própria imagem. Mas tudo no mundo nos devolve nossos traços; e a própria noite nunca é bas­tante espessa para impedir que nos miremos. Demasiado presentes a nós mesmos, nossa inexistência antes do nascimento e depois da morte só influi sobre nós como ideia e apenas alguns instantes; sen­timos a febre de nossa duração como uma eternidade falsificada, mas que, entretanto, permanece inesgotável em seu princípio.

Está ainda por nascer quem não se adore a si mesmo. Tudo o que vive se aprecia; de outro modo, de onde viria o pavor que faz estragos nas profundidades e nas superfícies da vida? Cada um é para si o único ponto fixo no universo. E se alguém morre por uma ideia, é porque é sua idéia, e sua idéia é sua vida.

Nenhuma crítica de nenhuma razão despertará o homem de seu "sono dogmático". Poderá abalar as certezas irrefletidas que abun­dam na filosofia e substituir as afirmações rígidas por outras mais flexíveis, mas como, por um método racional, conseguirá sacudir a criatura, adormecida sobre seus próprios dogmas, sem fazê-la perecer?



---------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Fonte: Cioram, E. M. (Emile M.) - Breviário de Decomposição, tradução de José Thomaz Brum, editora Rocco, Rio de Janeiro, 2ª edição, 1995, pp. 66-67.


(*) Grifo nosso.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

a fábula da verdade

Uma tarde, muito desconsolada e triste, a verdade encontrou a Parábola, que passeava alegremente, num traje belo e muito colorido.

- Verdade, porque estás tão abatida? - perguntou a Parábola.

- Porque devo ser muito feia já que os homens me evitam tanto!

- Que disparate! - riu a Parábola - não é por isso que os homens te evitam.Toma, veste algumas das minhas roupas e vê o que acontece.

Então a Verdade pôs algumas das lindas vestes da Parábola e, de repente, por toda à parte onde passava era bem vinda.- Pois os homens não gostam de encarar a Verdade nua; eles a preferem disfarçada.

...................................................................................................NAMASTÊ.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

o candomblé e o samba

O Candomblé nasceu da necessidade dos negros escravizados em realizarem seus rituais religiosos que no princípio eram proibidos pelos senhores de escravos. E para burlar essa proibição, os negros faziam seus assentamentos e os escondiam, preferencialmente fazendo um buraco no chão, cobrindo-os e por cima colocavam imagens e dançavam para seus Òrìsàs, dizendo que estavam cantando e dançando em homenagem àquele santo católico. Daí nasceu o sincretismo religioso que foi abandonado mais tarde pela maioria dos adeptos do Candomblé tradicional, com o "término" da escravidão e mais concretamente quando o Candomblé conquista sua aceitação como religião, com a liberdade de culto garantida pela Constituição Brasileira.

Mametu Kindandalakata e Projeto Nosso Samba

no Terreiro Loabá (Ilê Azongo Ori Xangô) - Foto: PNS 2006


À primeira vista, para os leigos, o Candomblé é uma coisa só. Mas, não é bem assim. Existem vários grupos, onde o mais expressivo, sem dúvida, é o grupo Yorùbá (na atualidade). Na época do tráfico de escravos, vieram muitos negros oriundos de Angola e Moçambique: os Bantos, Cassanges, Kicongos, Kiocos, Umbundo, Kimbudo, de onde se originou o “Candomblé Angola”, facilmente reconhecido por quem é da religião, pela maneira diferente de falar, cantar, dançar e percutir os tambores, o que é feito com as mãos diretamente sobre o couro com ritmos e cadências próprios, alegres e ligeiros.

É o Candomblé de onde se originou o Samba, que tomou emprestado o próprio nome, que em Kimbundo significa "oração". É também origem do "Samba de roda", que era feito como recreação, principalmente pelas mulheres, após os afazeres rituais, dançando e cantando dizeres em sua maioria jocosos e galhofeiros. Mais tarde assimilado pelo Samba de Caboclos, aí já em sua versão mais “abrasileirada” como um culto ameríndio que era feito pelos Caboclos, aí já incorporados em seus "cavalos" e já em idioma aportuguesado com versos chamados de "sotaque". Isto, porque quase sempre eram parábolas ou charadas que poucos entendiam. muito em voga ainda hoje.

Quando cultuamos nossos orixás, cultuamos também as forças elementares oriundas da água, da terra, do ar, do fogo, etc.

Essa forças em equilíbrio produzem uma enorme energia (axé), que nos auxilia em nosso dia a dia, ajudando para que nosso destino se torne cada vez mais favorável.


Sendo assim, quando dizemos que adoramos deuses, nós nos referimos a estarmos adorando as forças da natureza, forças essas pertencentes à criação do grande pai. Pai esse conhecido por nós como "Ólorum" (Deus Supremo). ¨

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Texto escrito por Carla Goulart - Excerto do Informativo do Mov. Cult. PROJETO NOSSO SAMBA – Nº Especial 8º Aniversário.

terça-feira, 17 de julho de 2007

para refletir...

"O que sou senão um monte de absorvições"
............................................Marinho, S. C.

uma declaração de amor


Laroiê é o senhor da irreverência, dono das artimanhas e encantador das serpentes do tempo; o que bate suas asas e produz o desassombro do acaso. Meu amigo Exu.

Demonizado, umbandizado, amaldiçoado, Exu foi vítima de uma distorção que o pintou com as sombrias tintas do maligno. Considerado pelos missionários cristãos como o equivalente africano do diabo das religiões monoteístas ocidentais, ele passou a ser visto, de forma distorcida, como um fomentador demoníaco de pecados e malvadezas.

Até mesmo a Umbanda, religião sincrética que guarda influência negra, representa iconograficamente Exu como o cramulhão da cristandade. Quantas vezes passo em portas de lojas de artigos umbandistas e me deparo com a deplorável imagem de chifres, cavanhaque e rabo representando Exu. Este não é, definitivamente, o meu amigo e compadre Elegbara, o que foi designado em um verso de Ifá como o menino querido de Olodumare. (continua...)

-----------------------------------------------------------------------
leia na íntegra, clique no link abaixo ou no título:

http://hisbrasil.blogspot.com/2007/07/uma-declarao-de-amor.html

carta aberta ao mr. neuendorf

Senhor Kevin Neuendorf,

Acabo de saber que o comitê olímpico dos Estados Unidos o afastou da delegação norte-americana presente aos jogos pan-americanos do Rio , após sua brincadeira de escrever "Welcome to the Congo" ao chegar à cidade de São Sebastião. O senhor virou até manchete de primeira página de O Globo, com sua foto acima da legenda Uma chegada cheia de preconceitos. Permita-me, então, fazer algumas observações sobre o assunto, ainda que essas mal traçadas nunca sejam lidas por vossa pessoa.

Inicialmente quero dizer que concordo com sua afirmação; somos o Congo. Afinal, vieram de lá, da região do Congo-Angola, só no século XVII, cerca de 700 mil africanos para trabalhar nas lavouras e minas do Brasil Colonial. Nós, os brasileiros, somos, portanto, congos. Somos também jalofos, bamuns, mandingas, bijagós, fantes, achantis, gãs, fons, guns, baribas, gurúnsis, quetos, ondos, ijexás, ijebus, oiós, ibadãs, benins, hauçás, nupês, ibos, ijós, calabaris, teques, iacas, anzicos, andongos, songos, pendes, lenges, ovimbundos, ovambos, macuas, mangajas e cheuas. Todos estes são grupos de africanos que chegaram nessas praias com seus valores, conjuntos de crenças, costumes e línguas - culturas, enfim - para, ao lado de minhotos, beirões, alentejanos, algarvios, transmontanos, açorianos, madeirenses e milhares de comunidades ameríndias, civilizar o Brasil.

Aqui no Brasil, senhor Neuendorf, está rolando uma certa moda de atribuir aos próprios africanos a responsabilidade sobre a escravidão. Todo mundo palpita sobre a história da África, mete o bedelho sem conhecimento de causa e, nesse rame-rame, tem gente dizendo que nós, brasileiros, nunca fomos racistas. Tem uns que, não duvido nada, estão prestes a descobrir que a velha Europa, com seus interesses mercantis e imperiais, nunca quis escravizar ninguém.

Houve até, veja o senhor, um respeitado intelectual brasileiro, Silvio Romero, que, no início do século passado, achou que a única salvação do Brasil era torcer para que a miscigenação se fosse processando com o aumento contínuo do sangue branco. Clarear o brasileiro, eis a solução do nobre intelectual.

Um outro intelectual, Oliveira Vianna, escreveu um livro outrora muito respeitado, que apaixonou gerações de leitores, chamado Evolução do povo brasileiro. Segundo este autor, a salvação possível do Brasil era a nação embranquecida. Para ele, a imigração européia, a fecundidade dos brancos , maior do que a das raças inferiores (negros e índios ), e a preponderância de cruzamentos felizes, nos quais os filhos de casais mistos herdariam as características superiores do pai ou da mãe branca, garantiam um futuro brilhante e branquelo ao Brasil.

Ninguém mais tem coragem de escrever uma barbaridade dessas, Mr. Kevin, mas muita gente, acredite, ainda pensa assim.

O senhor é, não leve a mal a constatação, escroto, preconceituoso, arrogante, obtuso e ignorante. Não há problemas nisso; o atual presidente do seu país também tem essas características.

Acredite numa coisa, sua atitude não me irritou minimamente e nem acho que devessem lhe mandar embora. Sabe o que me irrita, senhor Kevin? Vou lhe dizer rapidamente.

Me irrita saber que muitos brasileiros que se indignaram contra sua atitude pensam no fundo como o senhor e sentem nojo do povo brasileiro. Se irritaram, exatamente, porque nutrem verdadeiro pânico de lembrar que vivem num país mestiço, civilizado pela África, dotado da cultura popular mais rica e múltipla que o mundo conhece.

São brasileiros que marcharam com Deus pela liberdade em 1964, mandam os filhos para fazer intercâmbio nos EUA (como se o seu povo, mr. Kevin, tivesse alguma informação cultural decente para trocar com algum de nós), vivem encastelados em condomínios luxuosos, acham que as empregadas domésticas tem que vestir uniforme e subir pelo elevador de serviço, não gostam de pretos, tocam fogo em índios, não respeitam as religiosidades afro-ameríndias, dizem que samba é coisa de gentinha, frequentam compulsivamente shoppings centers, gastam num jantar o que pagam em um mês para os empregados, vibram quando a polícia executa moradores de favelas e criam filhos enfurecidos e preconceituosos que saem de noitadas em boates da moda para surrar garotas de programa nas esquinas da cidade.

Senhor Kevin, o Congo é aqui! O velho Congo, que revivemos nos maracatus, nos bailes de congo, nos moçambiques, na taieira, na folia de são Benedito, no candomblé de angola, nas cavalhadas, no terno-de-congo, no batuque do jongo e na dança do semba. Somos o Congo porque batemos tambor, batemos cabeça, dançamos e rezamos como lá. Somos o Congo e somos a África, porque somos o país de Zumbi, Licutam, Ganga- Zumba, Luiza Mahin, Bamboxe Obitiku , Felisberto Benzinho, Cipriano de Ogum, João da Baiana, Donga , Pixinguinha, Candeia, Mãe Senhora, Mãe Aninha, Tata Fomutinho, João Candido, Osvaldão, Marighela, Jorge Amado, Martiniano do Bomfim, Solano Trindade, Silas de Oliveira e de tantos outros heróis civilizadores.

Não se preocupe tanto, Mr. Neuendorf. A visão que o senhor tem do Brasil - preconceituosa, burra e mesquinha - , é a mesma visão do jornal que estampou sua foto na capa e a mesma visão da elite do bairro, a Barra da Tijuca, em que seu gesto foi feito. O Brasil oficial, que não ama o Brasil e sonha com Londres, Miami, Paris, Nova York e Madri, pensa igualzinho ao senhor.

Mas sabe o que é curioso, mister? Ao escrever, como um yankee escroto , que estava chegando ao Congo, o senhor não deixou de falar a verdade. O Congo é aqui; com a proteção de Zambiapongo, de todos os inkices de Angola e dos ancestrais do samba.

Sem mais,

Luiz Antonio Simas, filho de Nkosi e Matamba.

-----------------------------------------------------------------------------------
Fonte:
http://hisbrasil.blogspot.com/2007/07/senhor-kevin-neuendorf-acabo-de-saber.html

quinta-feira, 12 de julho de 2007

para refletir...

"As idéias são os sucedâneos dos desgostos."
............................................Marcel Proust

terça-feira, 10 de julho de 2007

milton Santos, brevíssima biografia de um mestre

.
video
.
fonte: a cor da cultura - heróis de todo mundo
.
---------------------------------------------------------------------------------------------
Milton Almeida dos Santos (Nascido na cidade de Brotas de Macaúbas - BA, em 3 de maio de 1926 e morto na cidade de São Paulo - SP, em 25 de junho de 2001) foi advogado e um dos pensadores expoentes da Geografia brasileira após a década de 1970.

Biografia
Apesar de ter se graduado em Direito
, desenvolveu trabalhos em diversas áreas da Geografia, em especial nos estudos de urbanização do Terceiro Mundo. Foi um dos grandes nomes da renovação na Geografia brasileira ocorrida nos anos 70.

Durante toda a vida buscou métodos e visões diferentes para encarar seus temas de estudo. Lecionou em diversas universidades mundo afora, no seu o exílio durante a ditadura militar no Brasil: Paris (França), Columbia (EUA), Toronto (Canadá), dar es Salaam (Tanzânia). Também lecionou na Venezuela e Reino Unido. Regressou ao Brasil em 1977, tendo trabalhado na UNiversidade Federal Fluminense e ingressando na Universidade de São Paulo em 1984. Faleceu em 2001, aos 75 anos de idade, deixando uma vasta obra.

Gênio e reconhecimento
Embora pouco conhecido fora do meio acadêmico, Santos alcançou reconhecimento fora do país, tendo recebido, em 1994
, o Prêmio Vautrin Lud, (este prêmio é conferido por universidades de 50 países).

Milton Santos foi dos poucos cientistas brasileiros que, expulsos durante a ditadura militar (naquilo que foi conhecido por "êxodo de cérebros"), voltaram depois ao país. Seu "passe" foi disputado por diversas universidades, que o queriam em seus quadros.

Sua obra "O espaço dividido", de 1979, é hoje considerado um clássico mundial, onde desenvolve uma teoria sobre o desenvolvimento urbano nos países subdesenvolvidos.
Suas idéias de globalização, esboçadas antes que este conceito ganhasse o mundo, advertia para a possibilidade de gerar o fim da cultura, da produção original do conhecimento - conceitos depois desenvolvidos por outros.

Espaço: abordagem inovadora
A obra de Milton Santos é inovadora ao abordar o conceito de espaço. De território onde todos se encontram, o espaço, com as novas tecnologias, adquiriu novas características para se tornar um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações.


As velhas noções de centro e periferia já não se aplicam, pois o centro poderá estar situado a milhares de quilômetros de distância e a periferia poderá abranger o planeta inteiro.

Daí a correlação entre espaço e globalização, que sempre foi perseguida pelos detentores do poder político e econômico, mas só se tornou possível com o progresso tecnológico.

Para contrapor-se à realidade de um mundo movido por forças poderosas e cegas, impõe-se, para Santos, a força do lugar, que, por sua dimensão humana, anularia os efeitos perversos da globalização.

Estas idéias são expostas principalmente em sua obra A Natureza do Espaço (Edusp,2002).

Ligações externas
O Wikiquote tem uma coleção de citações de ou sobre: Milton Santos.
Folha Online Brasil
Milton Santos
AGB - perfil do Prof. Milton Santos

----------------------------------------------------------------------------------------------------
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Adriana Moreira "Direito de Sambar" [CPC 058]

--------------------------------------------------------------------------
Batatinha é uma figura ímpar na Música Brasileira, não bastasse ser o mais expressivo nome do samba baiano. Sua música, tendo nascido da Bahia e adquirido carta de cidadania no Rio de Janeiro, retornou à sua terra de origem para adquirir um novo tipo de sentimento e forma.

Não por acaso, o samba de Batatinha, tem um possível paralelo na obra de bambas como Cartola, Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e outros mestres do morro e do asfalto. Ninguém melhor que Adriana Moreira poderia condensar a grande música de Batatinha numa antologia definitiva, como esta que a Gravadora CPC-UMES orgulha-se de lançar.


Faixas


01. direito de sambar (05:13) Ouvir ............................08. sorte do benedito (03:27)

02. imitação (03:19) Ouvir .........................................09. bolero (03:39)

03. hora da razão (03:25) ..........................................10. diplomacia (03:13)

04. espera (02:52) ....................................................11. sorriso de mulher (03:26)

05. jardim suspenso (03:32) ......................................12. rosa tristeza (02:48)

06. conselheiro (04:14) .............................................13. ago ago (03:52)

07. indecisão (03:10).................................................14. salve o presidente (04:10)


Ficha Técnica
Ficha técnica temporariamente indisponível.

----------------------------------------------------------------------

minha palavra

--------------------------------
minha palavra parece comigo:
de corpo e alma é ela bem preta.
reta, direta, ela quer qual marreta
expressar aquilo que penso e digo.

minha palavra rejeita o perigo:
esse imputado ao boi da cara preta
que um caraíba um dia quis capeta;
de criancinhas raptor, inimigo.

minha palavra reflete meu gesto,
minha angústia, inquietação
e meus desejos d'um modo sincero...

minha palavra é meu manifesto.
ela é minh'arma, é insurreição...
por isso a expresso do jeito que quero!

------------------------------------------------

sexta-feira, 6 de julho de 2007

talhado p'ra batalha

--------------------------------------------------------o projeto nosso samba
----se espelha na tradição
----de luta de insurreição
----dessa nossa gente bamba

----que é corda e é caçamba
----que alicerça essa nação
----madeira que quebra não
----e pau p'ra qualquer demanda

e, talhado pra batalha
nada há que mais importe
que a quebra da cangalha

que tenta levar a morte
nossa cultura: qual tralha
ou coisa do menor porte

-------------------------------------------------------------------------------------------------------

quinta-feira, 5 de julho de 2007

rumo a transformação...

numas vezes os caminhos são curtíssimos; noutras, muitíssimo mais longos do que poderíamos imaginar. por vezes, fica nos a impressão, e mesmo uma quase certeza, de nos ser impossível chegar ao destino, efetivarmos nosso objetivo... todavia, os encontros, aqueles que almejamos e nos fazem, verdadeiramente, sentido por aspirarem colocar-nos juntos aos parceiros, aliados, aos guerreiros de fé (conhecidos nou não!) que a nós se somaram no vigente processo rumo à grande mudança e aos quais só se chega após trilhar especiais caminhos, não duvidemos, far-se-ão acontecer. sempre!

terça-feira, 3 de julho de 2007

instantâneo (soneto para cristina)

..
foi um tão empolgante e charmoso bom dia!
sobretudo encantou-me a simplicidade
surpreendeu-me outrossim a espontaneidade
o sorrir sem palavras, mais pura magia...

vestes claras cobriam-Lhe a figura esguia
e Lhe desentranhavam e Lhe expunham a beldade
e forjavam-Lha Deusa da felicidade
Ela que fez meu dia ser bem mais que um dia...

e a jornada que prenunciava-se dura
e perpétua cativa da besta rotina
reverteu-se e encheu-se então de ternura

emanada, exalada da Mulher-Menina
cujo negro sorriso de negra brancura
fez-se fotografar pela minha retina

-----------------------------------
criado em 10.04.2002

chega, chega!

---------------------
matam um joão hélio
comoção geral
matam mil erês
tá tudo normal

se matam play boy
bando de animal
se dez operários
nem sai no jornal

chega de chacina
chega dessa sina!

pôs fogo no índio
"mendigo!" pensou
nem foi p' ro presídio
filho de doutor

pegou, sim , manteiga
p' ro lanche da filha
"prendam essa nêga,
chefe de quadrilha"!

chega dessa sina
chega de chacina!

bateu na doméstica
quase que a matou
seu pai, pura hética*
logo o anistiou

tal ilustrativo
deixa evidente
o constitutivo
desse delinqüente

chega de chacina
chega dessa sina!

um boy mata os pais
tios lhe defendem
e se mata os tios
os pais lhe compreendem

é, se dão socorros
la nas confrarias
e danem-se os morros
e as periferias

chega dessa sina
chega de chacina!

gente bem de vida
mente corrompida
ética falida
moral genocida

tá tudo errado
ei, vocês, 'de cima'!
tá dado o recado
NÓIS VAMO É PRA RIMA!!!

chega de chacina
chega dessa sina!

----------------------------
homenagem ao rap, aos guerreiros(as) da cultura hip hop. tamos juntos!

(*) de hético: s. f., diminuição lenta e progressiva das forças da energia orgânica;
fraqueza extrema; tísica.

vamos botar p'ra ferver?!

matam nossa gente preta
p'ra matar nosso querer
quanta infâmia, quanta treta
mandam no nosso fazer

vamos descer a marreta
no quengo desse poder
sem ter medo de careta
vamos botar p'ra ferver

no memorial, histórias
muitos exemplos de glórias
vêm de tempos ancestrais

muitas foram as vitórias
outras virão, compulsórias
fincar nossos ideais

-------------------------------------
subvertendo... um poema-samba de terreiro.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

para refletir...

"Por trás de uma grande fortuna está um grande crime".
.................................................Honoré de Balzac

valente (no cais)

inhaca
no porto,
tá morto
o zaca

na maca
o torto...
bem morto
de faca

temido:
bateu,
matou!

ferido:
morreu,
passou...

-------------

na cidade. numa esquina. numa manhã...

- e aí, meu truta, o que é que tá pegando,
  cê nunca mais apareceu lá na quebrada?
  eu sei que cê não vacilou, não deu mancada
  então, por que é que sumiu? tá enricando?

- qualé? que nada, tô na maior correria
  direto e reto do trabalho p'ra "facú"
  que é apinhada de "play boy", bando de cú
  mas que, até, tem sangue bom p'ra parceria

- valeu, meu tru, é mó firmeza sua ripa!
  mas eu vou nessa. eu vou dar linha na pipa
  trombar uns manos pra derrubar um coban

- valeu, tá certo, cada um na sua praia...
  vê se se cuida p'ra que a casa não caia!
  e aquelas brejas, que tal depois de amanhã?!