sexta-feira, 29 de junho de 2007

Algumas considerações sobre o tal treze de maio

Ocorreu-me à mente, e nem sei bem o porque, o tal do treze de maio, e, então, resolvi escrever algo a respeito. Lembrei-me que já há algum tempo havia rabiscado algo sobre a referida data e que os tais rabiscos estão no Site do Movimento Cultural Projeto Nosso Samba de Osasco: www.projetonossosamba.org/informativo/informes.htm, mas, ainda assim, achei por bem postá-los aqui. Vamos a eles...

Leis Abolicionistas

  • 1815 - Tratado anglo-português, na qual Portugal concorda em restringir o tráfico ao sul do Equador;
  • 1826 - Brasil compromete em acabar com o tráfico dentro de 3 anos;
  • 1831 - Tentativa de proibição do tráfico no Brasil, sob pressão da Inglaterra;
  • 1838 - abolição da escravidão nas colônias inglesas;+ 1843 - os ingleses são proibidos de comprar e vender escravos em qualquer parte do mundo;
  • 1845 - A Inglaterra aprova o Bill Abeerden, que da a Inglaterra o poder de apreender os navios negreiros com destino ao Brasil;
  • 1850 - É aprovada sob pressão inglesa a lei Eusébio de Queirós, que proíbe o tráfico negreiro no Brasil;
  • 1865 - A escravidão é abolida nos Estados Unidos (13a. emenda Constitucional) 1869 - Manifesto Liberal propõe a emancipação gradual dos escravos no Brasil;
  • 1871 - Lei do Ventre Livre ou Lei Rio Branco;
  • 1885 - Lei dos Sexagenários ou Lei Saraiva-Cotejipe;
  • 1888 - Lei Áurea

A partir das supracitadas Leis Abolicionistas internacionais nos é possível perceber que a nossa Lei Áurea não foi, em momento algum, um ato de benevolência de nossa “linda e bondosa” princesa Isabel. Tratou e isso sim, do “final” de um processo que envolveu uma intensa e sangrenta luta por parte dos negros, desde o momento de sua chegada a esta terra como escravizados.

Foi a partir do Século XIX com o advento da Revolução Industrial (ascensão burguesa) que teve em solo inglês a sua consolidação e em conseqüência a mudança do modo de produção que as coisas começaram a mudar.

Com o surgimento da Indústria, do trabalho livre assalariado, veio uma nova ordem à qual, gradativamente, o mundo teve que se adaptar. A Inglaterra, então, a grande potência determinava o rumo das coisas. Assim, sendo o Brasil, ao final dos oitocentos, o único país a manter o regime escravocrata, passa a sofrer uma enorme pressão para se adequar ao novo status.

Ressalte-se que, paralelamente e em prol da abolição, travavam duras batalhas segmentos da sociedade que tinham os mais variados interesses (uns humanos, outros nobres e ainda uns nem humanos e nem nobres). E, claro, os negros cativos, livres, alforriados, fugidos, etc.

A história é longa. Por hora fico por aqui, mas deixando estes poucos, toscos e aglomerados conjuntos de palavras para reflexão.

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Mesmo tendo já há muito passado a data, penso que a reflexão nunca é demais; o assunto é assaz pertinente para embasar o debate sobre a questão do negro em nosso país.

dum nego di corpo e alma p'ra os negros d'almas brancas

forte é minha rima e cê já vai perceber

qu'ela é pé no peito e quero ver segurar...

é pombo sem asa e vai p'ra lhe derrubar,

vai quebrar-lhe as pernas, muito vai lhe doer


negro-branco, atente p'ra o qu'estou a dizer:

de nada adianta cê querer disfarçar...

dentre a gente branca que faz macaquear,

mano, seu pretume mais vai aparecer!


cê se diz poeta e eticétera e tal

se diz acadêmico, intelectual

um civilizado, honorável cristão!


cê corre de samba, jongo e maracatú

foge do candombe, candomblé, do lundú

se entrega passivo a essa "doce" ilusão!



Homenagem d'um sambista aos manos do RAP, do Hip Hop.

mergulhado











minha vida oceano
antes fonte, foi nascente
e arroio e riacho.
correu córrego e escorreu-se...
fêz-se rio, grande rio
fêz-se mar, fêz-se oceano.

minha vida oceano
antes rasa superfície
uma lâmina e só...
água rala, nad'espessa
hoje é densa, caudalosa
tem bem mais profunda idade.

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em 27.06.07, uma maior redondilha

samba de luto... morreu hélio bagunça!

Pois é, Gente boa gente bamba... O samba está de luto, faleceu nesta madrugada, o sambista Camisa Verde, Tio Hélio Bagunça. É mais uma grande perda, principalmente para nós de São Paulo. Para aqueles(as) que tiveram dadivosa oportunidade de conviver, ainda que por brevíssimos momentos, com essa memorável figura.

Tio Hélio ou Seo Hélio foi homem de grandes ensinamentos, referência para muitos no universo do samba, cultura afro-brasileira e popular. As poucas oportunidades que tive de estar com ele, de conversar (coisas sérias ou não), foram e são para mim de muitíssima importância, um aprendizado.

Morre o homem, mas permanece a memória, fica o legado para que possamos todos(as) dar seguimento à nossa história, nossa saga, resistindo, mantendo e afirmando os nossos valores afrodescendentes... Miremo-nos no exemplo desse grande Bamba, certo?

Salve Hélio Bagunça, verdadeiro baluarte! Vá na paz com os Nkisses, Orixás, Santos... Ao encontro de Zambi, Olorum, Deus!!!
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Texto originalmente postado como comentário do artigo "São Paulo, barra Funda, Hélio Bagunça" de Douglas Germano no Blog Partido Alto em 31.05.2007

claros e escuros ternos

vistamos ternos claros, os homens escuros.
sigamos, pois, na luta rumo a liberdade
na busca de um sentido pra humanidade.
quiçá, nos encontremos num porto, seguros!

pois, eles, homens claros de ternos escuros
que mandam e desmandam na sociedade,
obrigam-nos reféns de suas vis vontades,
só fazem é meter-nos em grandes apuros!

então, façamos deste pedaço d'América,
lugar onde o convívio não lembre o inferno;
mudemos de vez essa estrutura tétrica!

tornemos nosso mundo mais justo e fraterno,
uma comunidade que não seja histérica;
que abrigue aos de claros e d'escuros ternos!

quinta-feira, 28 de junho de 2007

João Hélio: Uma outra reflexão possível!

Olá, Gente boa gente! É o seguinte: aqueles(as) que quiserem entender, beleza! E para os(as) que não, beleza também!

Bem, vamos lá... Já estou cansado de assistir à desesperada comoção que toma conta do país gerando procissões e mais procissões, missas e mais missas, propagação midiática dioturnamente e por aí vai... toda vez que alguém das classes remediadas, privilegiadas é atingido pela violência. É incrível como as não poucas e sistemáticas mortes de meninos pretos, pardos, não brancos ou brancos das favelas e periferias; muitas delas extremamente violentas, com requintes mesmo de perversidade não causam comoção! Estão banalizadas.

A coisa é tão louca que mesmo o povão habitante das favelas e periferias (e maior vítima da violência), por vezes, adota a mesma postura e embarca no "chororô" dos de cima, sem conseguir chorar pelos seus (em pertença de classe e ou de etnia).

Nâo se trata de ser insensível ao que ocorreu com o menino João Hélio, mas de querer e exigir que a mesma sensibilidade, a mesma comoção se apresente quando da morte de qualquer criança. E isto só porque eu sei, e muitos(as) também sabem, que morre um sem número de crianças todos os dias e, muitas delas, mortas pelo Estado: seja por descaso quanto á saúde pública, segurança alimentar, etc. ou pela mão armada e covarde de "nossa" polícia.

Conclamo aos "correntistas" de plantão que olhem para o que acontece cotidianamente com muitas crianças (meninos e meninas) nas favelas, nas periferias... Por que não se indgnam com as mortes de meninos pardos, pretos? Eles não merecem velas, missas, procissões, alarde midiático? Por que?

Que nos indignemos sim com a tragédia que venha atingir o outro e os seus, tudo bem! Mas indignemo-nos também com a tragégia que venha atingir a nós mesmos e aos nossos!
Bem, poderia abordar muitas questões mais, mas paro, por hora, por aqui. Abraços.
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Texto escrito e divulgado por email em 22.02.2007

projeto nosso samba: 8 anos de luta

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Os integrantes do PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco nos congratulamos em novembro passado por ocasião da celebração de 8 anos de incessante luta, de resistência, em prol da manutenção e afirmação de nossos ancestrais valores (étnicos, identitários, culturais) que, em nosso coletivo, se faz representar pelo Samba.

Tratou-se, de um momento de imensurável significância; momento em que celebramos, principalmente, a nós e entre nós mesmos, pois tudo isto ocorre e, para tanto, nos mobiliza, pelo fato de a nós, primeiramente, fazer sentido este nosso fazer.

Com isto, dizemos que a relevância do que fazemos não está em parecer bonito, aceitável e repleto de sentido àqueles (as) de fora de nosso agrupamento. Caso assim o fosse, tratar-se-ia, então, de sermos tão somente mais um grupo de pessoas se querendo na “crista da onda” e preocupado em acontecer para os outros, e a qualquer custo. Não é o caso!

A nós nos interessa o acontecer para nós mesmos. E temos a certeza de que assim estaremos acontecendo para além... Muito além! Falamos, pois, de um acontecer, a partir das gerações passadas, para as gerações futuras. Estas que, decerto, ver-se-ão frente a situações em que necessitarão do legado, da herança, da sua ancestralidade manifesta de modo a poderem dela suprir-se com a energia vital tão necessária para o seguimento na luta pela consolidação de uma sociedade cujo status quo (estado de coisas) seja marcado por nossa real história; por nosso real valor; seja possibilitador da integral reprodução de nossos gêneros de vida, assim como o status quo vigente já o é para outros, em detrimento dos nossos.

Falamos, “nossos gêneros de vida” porque não se trata só do Samba, mas também dos Maracatus, dos Cocos, dos Bois-bumbás, dos Catimbós, dos Carimbós, dos Candomblés, dos Candonbes, dos Congados, dos Moçambiques... Com isto queremos dizer que nós, negros, não somos portadores de uma Cultura homogênea, ao contrário, ainda que haja (e há) uma universalidade que nos torna singulares ante outras etnias, somos plurais, dentre nós muitas são as Culturas. Sim, é do negro brasileiro que estamos falando!

O leitor ou leitora, em conhecendo os integrantes de nosso Clã, verá que ele não se compõe unicamente de negros (como Palmares, para citarmos um só exemplo). Mas, como bem diz nosso confrade, Fábio Goulart, no Projeto Nosso Samba tem branco que é mais negro que alguns negros que conhecemos. Compartilhamos anseios, utopias e se, por um lado, somos um grupo coeso, com convergência de idéias; por outro, temos nossas disputas internas, nossas discussões (por vezes calorosas), nossos embates... Contudo, o que impera entre nós é o sentimento de que nos somos necessários, temos um propósito e um compromisso com nossa ancestralidade; com os nossos no nosso presente e com as gerações futuras. Temos a nossa verdade que consiste em termos consciência de que o que fazemos é uma pequena parte, porém importante e imprescindível para o necessário ao processo de transformação do mundo tal qual o temos hoje para um mundo melhor para todos (as).

Sabemos do esforço, da garra que regem iniciativas de comunidades como o G. R. T. P. Morro das Pedras, de São Mateus que, como nós, também possui caráter marcadamente político e ideológico. Louvamos iniciativas como a Rua do Samba Paulista (Samba Autêntico e UNEGRO), Samba da Vela. Sabemos também dos diversos outros núcleos, terreiros de Samba que, principalmente na Grande São Paulo, mas não só, desempenham um papel crucial nesse processo do qual aqui tratamos, ainda que muitos não tenham uma preocupação, uma consciência de teor político-ideológico.

Para terminarmos, caro(a) leitor(a), retomamos os parágrafos iniciais nos quais versamos sobre o sentido de nossos fazer e acontecer. Do mesmo modo que só voltados para nós eles podem nos transcender até os nossos, onde quer que estejam eles, espacial e temporalmente, é, verdadeiramente, só deste modo que podemos possibilitar a você partilhar conosco uma mesma freqüência.

Assim, na paz dos Orixás, dos Inkisses, dos Vudus, sempre conosco, seguimos batendo nossos tambores, celebrando juntos a cada ano de caminhada do Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco! •

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Texto adaptado do original escrito para o Informativo PNS por ocasião do 8º aniversário do Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco ocorrido em 2006.

questões duma paixão proibida

dizes-me que te assusto
mas, não vês o quão me assustas!
quanto achas que me custa
bem querer-te intra busto?

não, não quero arcar com custos
de, nem, uma dor robusta
que me tire a paz augusta...
muito me seria injusto!

por estarmos assustados
vamos nos por a correr?
por-nos-emos a fugir?

ou faremos, acordados
nosso afã prevalecer:
nos deixarmos nos unir?


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soneto ou redondilha ou...

coração verde e branco (um soneto para a minha escola)

seu verde e branco tingiu o meu coração
que inflou-se tanto que quase me estoura o peito.
um forte tranco que fêz me pegar de jeito
e aos quatro cantos propagar com devoção

seu grito, canto de fé, sua tradição
batuque banto com o qual danço e me deleito
seus lindos manto e pavilhão impõem respeito...
e que encanto é ver a sua evolução!

estes meus versos seus lhe exaltam a história
que forjada na luta intensa e profunda
é sim, a narca dos que não vivem de brisa

e a sua velha guarda lhe guarda a memória
e vai cantando em glórias a barra funda
e é só por isso que eu visto essa camisa...

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subvertento o soneto...

meu velho e bom samba

ah, meu sofrido, meu velho e bom samba
filho do jongo, neto do lundú
angola, mina, cabinda, zulú
corda da qual é seu povo a caçamba!

ah, meu querido, meu belo e bom samba
filosofia e alma és tu
quimbanda, umbanda, candomblé, vudu
és mui sagaz, és guerra, és paz, és bamba

samba, tu tens uma história de drama
samba, da luta não foges, não medras
samba, tu vergas mas não levas tombo

samba, és raro, és da vela a chama
samba, és morro erigido das pedras
samba, tu és autêntico, és quilombo

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Na última estrofe (terceto), uma homenagem à rapaziada do, então, Samba Raro (de Pirituba), à Comunidade Samba da Vela (de Santo Amaro), ao, extinto, G. R. T. P. Morro das Pedras (de São Mateus), ao Projeto Cultural Samba Autêntico (da Casa Verde) e ao, extinto, Bar Quilombo (da Vila Matilde)!